Gerardo Lazzari/Divulgação
Gerardo Lazzari/Divulgação

A luz de Clara Nunes

Movida pelo sagrado, Fabiana Cozza grava DVD com documentário sobre a cantora

Lauro Lisboa Garcia - Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2013 | 19h59

Para celebrar o aniversário de sete décadas de uma de suas grandes inspiradoras, Fabiana Cozza vem fazendo desde o ano passado um belo e comovente show concebido por ela, a atriz Olívia Araújo e o bailarino e coreógrafo J. C. Violla, e com elementos simbólicos, como candeeiros, no cenário.

Agora, ela volta ao Auditório Ibirapuera, onde estreou em outubro de 2012, para gravar o DVD O Canto Sagrado – os 70 Anos de Clara Nunes nesta sexta e sábado. Para incrementar esse desgastado formato de registro, a cantora decidiu também realizar um documentário sobre Clara Nunes (1942-1983) com depoimentos exclusivos da irmã da cantora, Dindinha, de Elza Soares, que foi quem primeiro deu guarida a Clara em sua mudança para o Rio, e do compositor Wilson Moreira, que ela tanto gravou, entre outros.

“A veracidade da coisa ao vivo no palco sempre me chama mais a atenção e me agrada mais do que ver shows em DVD. As gravações passam por edições, tratamentos e tudo o mais, e a espontaneidade muitas vezes fica de lado”, diz Fabiana. “Levando isso em consideração, ao homenagear Clara, fui procurar saber melhor quem é essa pessoa. Isso porque a artista todo mundo conhece, está nos discos, nos livros.”

Boa parte do repertório da filha de Ogum com Iansã foi dedicada à religiosidade afro-brasileira. No entanto, o título do show de Fabiana – que se identifica com Clara não só pelo universo do samba, mas pelo candomblé – não tem relação direta com religião. “O sentido do sagrado neste espetáculo tem um filtro artístico que passa por uma série de outras coisas: a devoção ao seu ofício, o respeito à plateia que nos assiste, os códigos que a gente não consegue identificar de forma pragmática”, diz.

“Tudo isso permeia o canto dessa intérprete e, de certa maneira, o canto que eu busco. É a gente estar em contato com aquilo que a gente tem de fazer de melhor pro outro também. Porque quando escuto as pessoas dizerem que saíram iluminadas, felizes e com o coração mais leve do meu show, a música tem uma função química. Agora, no meu aprendizado, essa química só transforma se você estiver conectado a uma energia que é muito mais do que a que se consegue ver, do que a técnica meramente estudada”, diz. “Acho que Clara tinha isso, e trazia com ela uma série de símbolos sagrados que vão além de ser identitários da cultura brasileira, dos diferentes Estados em que ela cantou.”

A leveza que Fabiana leva ao palco não se limita à música. As coreografias de J. C. Violla contribuem para a delicadeza dos movimentos da cantora. “Essa leveza acompanha muito o conceito de claridade, de luminosidade. Eu tenho de passar tudo isso com o corpo também”, diz ela.

No repertório, há clássicos da carreira de Clara que provocam grande comoção, como Conto de Areia e A Deusa dos Orixás (ambas de Romildo e Toninho Nascimento), O Mar Serenou (Candeia), Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares), Lama (Mauro Duarte) e Feira de Mangaió (Sivuca/Glorinha Gadelha). Um Ser de Luz, que João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro fizeram para Clara logo após a morte dela, e emocionou Mariene de Castro e Virgínia Rosa em seus tributos à cantora, ficou de fora. “Canta, meu sabiá, voa, meu sabiá/ Adeus, meu sabiá, até um dia”, diz trecho da letra.

“Pelo fato de eu ser do candomblé e ter sido budista, a ideia do sagrado no meu entendimento é de infinitude, como a luz. Por isso, os candeeiros iluminados no cenário. Não queria que o show fosse de certa forma um ‘funeral’ no palco, uma despedida. Quando o último candeeiro fica aceso ao descer no palco, é para dizer que aquilo está sendo perpetuado, que aquela tradição, que a força desse cantar tem continuidade, tem estrada. Eu sou só uma passagem pro negócio.”

Intérprete quis trocar música por creche, diz irmã

Como fã de Clara Nunes e lembrando da época em que era jornalista, Fabiana Cozza foi direto à fonte. “Ouvir da boca de quem conviveu com Clara, buscar a parte histórica sobre quem era essa pessoa que se tornou um ícone na música popular brasileira foi o que me moveu fazer esse DVD.” A cantora viajou até Caetanópolis, onde a mineira nasceu, para gravar boa parte do documentário.

Pouco antes de morrer, Clara confessou à irmã a vontade de parar de cantar e se dedicar a uma creche para crianças pobres. O ponto de partida do documentário é o trabalho de Dindinha nessa creche, que em parte é mantida com a venda de tapetes confeccionados manualmente por voluntárias da cidade. Fabiana comprou sete desses tapetes, que estão no palco do Auditório, só para essa ocasião especial.

FABIANA COZZA

Auditório Ibirapuera. Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 2 do Pq. do Ibirapuera, 3629-1075. 6ª e sáb., 21 h. R$ 20.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.