A juventude cubana conectada com o mundo

Da mesma maneira como o projeto Buena Vista Social Club - realizado pelo músico americano Ry Cooder, no final dos anos 90 - fez recuperar o interesse pela música cubana tradicional, a projeção internacional do trio de rappers Orishas abriu uma clareira para a nova geração. Simultaneamente ao ótimo El Kilo (Universal), terceiro CD dos Orishas, que voltam a fazer show em São Paulo no dia 19, sai no Brasil a compilação Cuba 21 - Nueva Música Cubana (EMI), com 19 expressivas faixas dedicadas a talentos desconhecidos por aqui. Entre eles a cantora Haydée, a rapper Telmary, os grupos Free Hole Negro, os cantores William Vivanco, Kelvis e Boris, e a baixista Yusa, que tocou em Paris com Lenine em seu trabalho mais recente, In Cité.O Free Hole Negro também integrou outra compilação importante, Soy Rapero, produzida pelos brasileiros Guga Stroeter e Kassin, lançada em 2002. Stroeter levou a idéia adiante e lançou um bom CD-solo de Rene, outro rapper presente naquela coletânea. Além de fazer boa música, a turma de raperos chamou a atenção por trocar a agressividade característica do hip-hop pelo otimismo, evitando a contestação política. Em parte porque lá as diferenças sociais são menos disparatadas e quase todo mundo vive no mesmo nível de pobreza; em parte porque muitos artistas mantêm a carreira subsidiada pelo governo cubano.Nem tudo, porém, é conformismo. Incisivo, o grupo Interactivo reage ao coro dos aparentemente contentes em Los Revolucionarios, uma das melhores faixas de Cuba 21. "Temos de lutar com uma série de problemas cotidianos/ Não me peça, digam o que digam, que eu fique aqui sentado, calado, encantado da vida... Tão distintos, tão iguais, tão peculiares, até quando?", diz a letra. O grupo também destila ironia em No Money ("com dinheiro ou sem dinheiro, faço sempre o que quero"), que encerra o CD numa dançante mescla de funk, son é son con "n" mesmo, o ritmo cubano e hip-hop.Não apenas por essas peculiaridades o Interactivo, formado por ex-integrantes do grupo Habana Abierta, é o ponto-chave do disco. São seus colaboradores Telmary, Francis, Yusa e Kelvis, intérpretes de outras faixas do CD, em que revelam facetas mais melódicas - românticas, sensuais ou dançantes. A diversidade sonora, aliás, é uma das boas surpresas do álbum, que além de hip-hop tem desde bolero com acento soul (Siempre Que te Vas, com Haydée), r&b (Libre, com Telmary, e Te Equivocas, com Obsessión), intervenções de tabla indiana e guitarra pesada até uma ótima mescla explícita no título de Cumbia Reggae, do Siete Rayo. Kelvis divide os vocais com a carioca Fernanda Abreu na suingada Si Tú no Quieres. Há belas baladas nas envolventes vozes de Haydée (Tanto Amar), Yusa (Tomando el Centro, com levada de bossa nova). Telmary, a mais contemplada do CD, tem nos duetos com William Vivanco, talentoso herdeiro da velha trova cubana, seus melhores momentos.Se de um lado os novatos honram a tradição rítmica e vocal da ilha de Fidel Castro, revelam o frescor entusiasmante de uma Cuba sonora que cada vez mais se abre para o mundo. Melhor ainda: surpreende também pela qualidade técnica de padrão internacional. Não há embargo que contenha mais o seu avanço.

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