Sérgio Castro/AE
Sérgio Castro/AE

A íntegra da obra de Itamar Assumpção

Série de shows no lançamento da 'Caixa Preta', que reúne os 12 álbuns do compositor

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2010 | 06h00

Zélia Duncan a gente sabe que é admiradora fervorosa de Itamar Assumpção (1949-2003). Naná Vasconcellos fez par significativo com ele, Arrigo Barnabé, Alzira e Tetê Espíndola, bem como a Banda Isca de Polícia, estão por dentro de sua história. Denise e Anelis (irmã e filha), idem. Mas o que Lenine, Chico César, Porcas Borboletas, Karina Buhr, Elza Soares, Jards Macalé, Zezé Motta, Mariella Santiago e Arnaldo Antunes têm a ver com a obra e o estilo do compositor paulista? Esse pessoal todo vai estar aí "pra provar pra quem quiser ver e comprovar" na série de shows de lançamento do projeto Caixa Preta, a partir de desta sexta, 15, no Sesc Pompeia.

 

A caixa, que reúne todos os 12 álbuns do compositor, veio para dar outra dimensão à sua obra peculiar. Agora, com os shows, a ideia é ampliar o alcance, fisgando um público além daquele que o cultua desde Beleléu. "A gente já tem visto um público novo interessado no Itamar", diz o baixista Paulo Lepetit, da Banda Isca de Polícia, que toca hoje. "Esses anos nos shows da Isca vai uma molecada, que ouviu falar dele, mas nem chegou a vê-lo. Aí vêm conversar com a gente e perguntar que som novo é esse? Pra você ver como era a tal da vanguarda mesmo. Continua despertando surpresa nas pessoas."

 

Nessa conquista, os dois discos inéditos da caixa, Pretobrás II - Maldito Vírgula (produzido por Beto Villares) e Pretobrás III - Devia Ser Proibido (com produção de Lepetit), já são um avanço representativo, com uma potência de som que os outros álbuns de Itamar não têm. No que foi produzido por Villares, há uma profusão de novos talentos, "atualizando" a obra do compositor, sem deturpá-la. Igualmente ótimo, o outro ficou a cargo da Isca de Polícia, que sabe tudo de seu ofício, e conta com o aval de Ney Matogrosso e Zélia Duncan.

 

Todos os álbuns de Itamar serão reinterpretados na íntegra na série de shows. Hoje a lendária banda que o acompanhou durante décadas vai tocar o antológico disco de estreia, Beleléu Leléu Eu (1980). Lenine participa do show cantando dois clássicos: Nego Dito e Fico Louco. "Uma parte desse repertório a gente já toca, mas outras nunca fizemos ao vivo. Itamar sempre mudava muita coisa de um show para outro, então essas canções tiveram vários arranjos", conta Lepetit. "A gente está sempre mudando, procurando dar vida nova a essas músicas."

 

Na sequência, a banda mineira Porcas Borboletas apresenta uma nova versão para Às Próprias Custas S/A (1982), com participação do carioca BNegão. Amanhã é a vez da filha de Itamar, Anelis Assumpção - que assumiu a curadoria do projeto, realizando uma ideia do próprio pai -, comandar a banda que toca Sampa Midnight (1983), com participação de Serena Assumpção e Arrigo Barnabé. Expoente da nova geração de Pernambuco, Karina Buhr encara Intercontinental (1988), com a presença de Denise Assunção e Elke Maravilha. A celebração continua nos próximos fins de semana até o dia 30.

 

Banda Isca de Polícia: por dentro da história. Foto: Oscar Bastos/Divulgação

 

Dois inéditos na Caixa Preta

A Caixa Preta (Selo Sesc), de Itamar Assumpção, é digna da intensa obra do compositor, em edição com a qualidade técnica que sua condição de artista independente não conheceu. Com ilustrações de Antonio Peticov, um livreto reúne textos de Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Thaíde. Elke Maravilha, Carlos Rennó, Théo Werneck, Patrícia Palumbo e outros. A caixa vai custar R$ 150, mas será vendida a R$ 120 nas noites de shows de lançamento do projeto.

Além dos dois inéditos - Pretobrás II e III -, produzidos este ano, os outros dez álbuns foram remasterizados e ganharam edição em formato de mini-LP, com reproduções dos encartes originais. O material gráfico é de primeira linha. Às Próprias Custas S/A (1982), gravado ao vivo, conta com uma faixa-bônus, um cover de Não Vou Ficar, de Tim Maia, até agora inédito em disco.

 

O álbum de estreia de Itamar, Beleléu Leléu Eu (1980) é um clássico que justifica a bandeira da vanguarda paulistana, com aquela fusão inclassificável de diversos estilos de música negra (ou do gueto, como diz Thaíde), letras incisivas e a entrada de cena do personagem Nego Dito. Como lembra Paulinho Lepetit, aos poucos esse personagem foi se diluindo e Itamar passou a se preocupar mais com a poesia (foi parceiro de Paulo Leminski, Alice Ruiz, entre outros) e a elaboração de seu estilo. É notável seu crescimento musical de um disco para outro - mas as fichas todas já tinham sido jogadas em Beleléu.

 

O maior atrativo da caixa, porém, são os álbuns inéditos, com uma qualidade de som e produções impecáveis de Beto Villares e Lepetit, além de interpretações marcantes de Zélia Duncan, Seu Jorge, Elza Soares, Arnaldo Antunes, e outros para canções desafiadoras, além da voz do próprio Itamar.

 

Caixa Preta - Choperia do Sesc Pompeia. R. Clélia, 93, 3871-7700. Sexta (Banda Isca de Polícia + Lenine) e sábado (Porcas Borboletas + BNegão), 21h30. R$ 7, R$ 14 e R$ 28.

Tudo o que sabemos sobre:
Itamar Assumpção

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.