A hora e a vez dos 'novos pernambucanos' na Rua Augusta

Bares de SP mostram um pouco das produções de bandas que tem sangue pernambucano fervilhando nas veias

Alessandra da Mata, de O Estado de S. Paulo,

28 de agosto de 2009 | 16h09

Em uma semana Maquinado, na outra, Creolina, ambas fazem a animação do Bar Tapas. No Studio SP, mês fechado com as bandas Eddie, Diz Maia, Nuda e 3 na Massa. No Sarajevo, Guardaloop, Na Outs, Astronautas. Os bares, todos na região da Rua Augusta, centro de São Paulo, mostram um pouco das produções de bandas que tem algo em comum: o sangue pernambucano fervilhando nas veias e as referências musicais do frevo, maracatu, ciranda, coco, baião e é claro, o rock.

 

Show da banda pernambucana Guardaoop, no Studio SP. Foto: Alessandra da Mata/AE

 

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linkConfira o trabalho do grupo no myspace

 

Sim estamos falando dos "Novos Pernambucanos", grupos que vieram de várias partes do Estado nordestino e tem se destacado no cenário musical paulistano. Carregadas de sotaque, essas bandas, principalmente de Olinda e Recife, têm marcado presença também em bares da Barra Funda, como o CB e o Berlim, e da Vila Madalena, como o Grazie a Dio.

 

E o que fazem esses pernambucanos tão presentes na grande selva de pedra? "A busca pelo sucesso e pelas pessoas que entendem e realmente gostam de música de qualidade", afirma opercussionista da banda Eddie, Alexandre Urêia.

 

Já em meados da década de 90, com o Movimento Mangue Beat de Chico Science (1966-1997), do grupo Nação Zumbi, foi possível perceber a que vinham os meninos pernambucanos. Foi o início de um novo estilo na história da música brasileira.

 

A trajetória se manteve com a banda Nação Zumbi, que continuou produzindo mesmo depois da morte de Chico, com Mundo Livre S.A, Otto, Siba, Mestre Ambrósio, Cordel do Fogo Encantado, China, Mombojó, bandas que conseguiram construir uma carreira sólida no mercado fonográfico.

 

Mas só qualidade musical não é garantia de que as boas produções vão chegar a fazer sucesso. É preciso maturidade e perseverança. Grupos como Jorge Cabeleira e Querosene Jacaré, embora tenham conseguido gravadoras de peso para seus primeiros trabalhos, um pela Paradoxx e outro pela Sony, não tiveram a mesma sorte, se perderam no meio do caminho e não conseguiram o reconhecimento nem em São Paulo nem em âmbito nacional.

 

Mas, a efervescência musical pernambucana não perdeu suas forças, pelo contrário, é possível afirmar que esse é o melhor momento deles por aqui. "São Paulo está numa fase muito legal de acolhimento aos músicos do Nordeste, em especial aos pernambucanos, porque temos muita gente boa produzindo música por lá!", afirma Marquinhos Pontual, vocalista da banda Guardaloop. Segundo ele, aqui as bandas encontram espaço e público conseguindo assim dar seguimento aos trabalhos.

 

"A rotina é árdua, porque não é fácil viver nessa ponte aérea Pernambuco - São Paulo", diz Hugo Carranca, que já tocou em bandas como Bonsucesso Samba Clube, Otto, Think Of One, Sheik Tosado, e hoje lidera a Guardaloop. "A gente encara essa maratona porque aqui é possível encontrar espaço para nosso trabalho, o que acaba valendo muito à pena". Carranca salienta com conhecimento de causa de quem já viveu outras experiências por aqui.

 

Os músicos, de forma geral, são categóricos em afirmar que São Paulo é a cidade em que eles aterrissam para trabalhar mesmo, fazer contatos, marcar entrevistas, montar agenda de shows.

 

"Aqui é correria", diz Pontual. "Afinal, carreira de banda se constrói na estrada e não há cidade melhor do que São Paulo para oferecer estrada para toda essa gente", finaliza Ureia.

 

 

Na onda dos conterrâneos

 

Para se aventurar em São Paulo é preciso desprendimento. Muitos desses músicos sabem as 'dificuldades que irão enfrentar ao chegar à metrópole. Mas no caso dos pernambucanos eles mantêm verdadeiras "irmandades" com os amigos que já vieram e se instalaram por aqui.

 

Na região de Perdizes os "meninos" encontram abrigo, conforto e incentivo de companheiros que já conseguiram se consolidar, como Gustavo da Lua, Lúcio Maia, André Frank entre outros. Foi ali que integrantes de bandas como a Guardaloop se instalaram para fazer contatos na capital paulista.

 

O incentivo é divisor de águas para os grupos. "Acho que aqui é a porta de divulgação de novos trabalhos para o Brasil todo", diz Igor San, baixista da Guardaloop. A banda já tem um CD com o mesmo nome, gravado no Fábrica Estúdios (PE) e no Estúdio Batuka (PE) por Berna Vieira. O disco contou com participações importantes de Erasto Vasconcelos, Maciel Salu, Alexandre Urêia (Eddie), Gustavo Da Lua (Nação Zumbi), Hugo Gila e Gabriel (Academia da Berlinda) e Joe (Mundo Livre S/A).

 

O Guardaloop está produzindo o segundo CD e aproveitando a "invasão pernambucana" para também traçar sua história por aqui. "Nós fizemos dois shows no Studio SP e um no Sarajevo com nosso trabalho autoral e percebemos uma boa aceitação do público", salienta Pontual.

 

Inicialmente o disco Guardaloop era um projeto idealizado por Carranca. "Eu tinha muitas ideias, buscava uma linguagem pra transformar aquilo em música e fui convidando amigos que pudessem contribuir para que as ideias tivessem um corpo". O que o baterista ia criando ele ia guardando em "loops" (função principal do sampler) e daí surgiu o nome da banda Guardaloop.

 

O projeto todo foi traçado em cima desse nome, não o contrário, como é de costume. "Podemos dizer que o nome da banda é que criou a identidade do grupo", explica. Sobre as influências musicais, Carranca afirma que cada um dos integrantes tem suas próprias referências que acabam interferindo na produção final da banda. Ele, por exemplo, gosta muito de Rock, Soul, Reggae, Dub, Hip Hop, Ragga Muffin. "Temos essas bandas como referenciais, mas, não é porque ouvimos isso que precisamos produzir apenas esses estilos. A gente cria em cima de todas essas influências", afirma.

 

Frevo, maracatu e demais sons locais estão no inconsciente, eles afloram ao longo de toda produção da Guardaloop mesmo que sutilmente. Pontual acredita que essa mistura de sons de diversas regiões é que faz a música pernambucana atrair o público.

 

Segundo Carranca o som da Guardaloop tem uma pegada eletrônica, misturada com Dub, Afrobeat, Samba e Carimbó. Não há como fugir das raízes. "Samplear uma rabeca é uma influência muito local. Na música "Cavaleiro Solitário", por exemplo, temos a mistura do sotaque nordestino, a rabeca sampleada de Maciel Salu num ritmo de raggamuffin", mas, conclui que é uma mistura harmoniosa que dá certo.

 

Na formação atual a Guardaloop tem Marquinhos Pontual, no vocal, Vitor Magal, na guitarra, Igor San, no baixo, Hugo Carranca, na bateria e programação, Iberê, nos teclados e Oroska na percussão.

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