Reuters
Reuters

A história de Tina Turner por ela mesma

A biografia de Tina Turner sempre foi entrelaçada com a de Ike Turner, mas ela agora dá sua versão final

Bethonie Butler, The Washington Post

01 de abril de 2021 | 20h00

Quando o quinto álbum de Tina Turner, Private Dancer, surgiu no ranking da Billboard em 1984, ele foi aclamado por todos, como também o seu retorno, mas ela discorda disto. “Não acho que foi um álbum marcando meu retorno. Tina nunca tinha chegado lá”, disse a cantora num novo documentário da HBO sobre sua vida e sua carreira. “Aquele foi um álbum de estreia”.

Essa declaração contundente do ícone da música, que manteve o sobrenome do seu abusivo ex-marido, Ike Turner, foi feita após o divórcio em 1978. O documentário, Tina, vem nos lembrar que seu sobrenome foi a única coisa que ela quis manter do primeiro casamento; foi a mídia que continuou a fazer de Ike Turner e sua agressão um foco importante das entrevistas sobre a cantora e o seu trabalho.

Tina, dirigido por Dan Lindsay e T. J. Martin, não é tão revelador como outros documentários recentes sobre celebridades. Sua força repousa no contexto, que os cineastas oferecem por meio de gravações de arquivo e entrevistas contemporâneas com a cantora, seu segundo marido, Erwin Bach, jornalistas e alguns amigos, como Oprah Winfrey.

Abaixo as conclusões mais importantes do filme de quase duas horas:

- Tina Turner nunca aspirou ser uma estrela

O documentário lembra sua viagem fatídica para ver a banda de Ike Turner tocar em St. Louis no final dos anos 1950. Ela perguntou a Ike se podia se juntar à banda no palco, mas ele recusou porque  “não acreditava que eu conseguiria cantar”, ela lembra numa gravação de áudio de uma entrevista de 1981 para a revista People. Tina continuou a aparecer nas apresentações da banda e no final Ike cedeu. A voz dela, forte e rouca, deixou-o muito impressionado.

Aos 17 anos, Tina começou a cantar com a banda todos os fins de semana. “Eu era jovem, ingênua, uma garota do interior”, ela lembrou numa entrevista mais recente. “E tudo se abriu para mim”. No começo, como disse na entrevista concedida à People, o relacionamento deles foi baseado “num amor familiar”. Mas quando o duo lançou seu primeiro disco de sucesso, A Fool in Love, em 1960, Ike mudou o nome da banda, que passou a se chamar Ike & Tina Turner Revue. E decidiu que Tina seria sua mulher.

“Ela era realmente jovem. Não ambicionava ser uma superestrela”, lembra Jimmy Thomas, que fazia parte do coro de apoio da banda. “Mas quando cantava, ela simplesmente era a superestrela. E Ike explorou isto”.

Na entrevista para a People, Tina disse que Ike, que não recebeu o crédito em Rocket 88, gravação pioneira de rock’n’roll que ele fez com sua banda em 1951, se sentia profundamente inseguro quanto a ser deixado para trás em músicas que ajudou a ficarem famosas.

Tina estava grávida do seu filho, Ronnie, quando discordou dos planos de viagem da banda acertados por Ike. Ele reagiu e bateu nela com um expansor de sapato. E as agressões continuaram até que ela o abandonou em 1976.

“Talvez eu tenha sofrido uma lavagem cerebral. Eu tinha medo dele e me preocupava com o que poderia acontecer com ele. Sabia que se o deixasse, não havia ninguém para cantar”, diz Tina no áudio.

À medida que a estrela de Tina ascendia, Phil Spector, na época um influente produtor fonográfico, propôs trabalhar com ela, e apenas ela. Embora o primeiro trabalho feito em colaboração, o single River Deep - Mountain High, de 1966, tenha sido um fracasso comercial (pelo menos nos Estados Unidos), Tina sentiu o gosto da liberdade trabalhando com Phil, que a incentivou a expandir seus horizontes musicais. (Mas Ike teve seu crédito na música como parte de um acordo feito com Phil Spector).

“Foi tão genial, minha voz soava tão diferente se sobrepondo à música”, diz ela.

Neste ponto, já não mais amava Ike. Mas continuou a trabalhar com ele por lealdade e determinada a ajudá-lo a gravar um sucesso. Ela o conseguiu com o cover, vencedor do Grammy, de Proud Mary, de Creedence Clearwater Revivals, em 1971, embora a canção só tenha amplificado a pressão pelo sucesso e as agressões de Ike, por outro lado, se intensificaram.

Tina diz que o Budismo ajudou-a a se tornar confiante o bastante para deixar o marido. E a relação chegou ao seu limite em 1976 quando ele a atacou a caminho de um aeroporto em Dallas. O incidente foi revivido numa cena memorável do filme de 1993, Tina, estrelado por Angela Basset no papel da cantora. Nessa cena, Tina revida quando ele a ataca; na vida real ela agiu da mesma maneira, mas ao chegar no hotel, ele, sangrando e inchado, ela massageou a cabeça de Ike para ele conseguir dormir.

Foi então que ela empreendeu uma fuga desesperada, atravessando uma estrada para chegar num hotel próximo. “Peguei minha pequena mala de mão e sai. Mas estava com medo”, diz ela na entrevista à People.

 

- Tina Turner foi forçada a reviver seu trauma em entrevistas durante décadas

 

O documentário lembra da agenda lotada de Tina após se divorciar de Ike, divórcio do qual ela diz que “ficou com nada” exceto seu sobrenome. “Foi quando percebi que poderia usar Tina para ser uma empresa”.

Os anos seguintes foram repletos de apresentações em Las Vegas e especiais na TV numa aposta para recuperar o dinheiro que perdeu no divórcio, que incluiu muitos contratos cancelados. Tina acabou contratando Roger Davies para ser seu empresário, o que lhe rendeu shows de maior destaque - mesmo enfrentando racismo dentro do setor fonográfico - e o novo som que marcou um afastamento do seu trabalho com Ike.

A entrevista dada por Tina ao editor de música da People, Carl Arrington foi publicada na edição da revista de 7 de dezembro de 1981 e foram os primeiros comentários que ela fez sobre as agressões do ex-marido. Mas mesmo depois de chegar ao ápice da carreira solo, conquistando um Grammy com Private Dancer (seguido por um papel no filme Mad Max Além da Cúpula do Trovão, de 1985, ela era constantemente questionada sobre sua relação com Ike.

Tina tentou acabar com essa discussão em sua autobiografia I, Tina, de 1986, que escreveu com Kurt Loder. Mas o resultado foi o oposto, em parte porque outras mulheres se inspiraram nela.

“A história afetou muitas pessoas que achavam que tinham de manter seus segredos guardados”, disse Katori Hall, roteirista que levou a história de Tina para a Broadway. “Foi como abrir uma caixa de Pandora”.

 

- O passado doloroso de Tina não se limitou à violência doméstica à qual ela sobreviveu

O documentário se consagra mais à carreira da cantora, mas rapidamente aborda sua infância em Nutbush, Tennessee, onde sua família colhia algodão e presenciou a violência do pai contra sua mãe. No final os pais abandonaram a família completamente.

“Não recebi amor quase nunca em minha vida. Não tive amor da minha mãe e do meu pai desde que nasci, e sobrevivi”, ela afirma. “Porque cheguei tão longe sem amor... Não tive um caso de amor que fosse autêntico e sustentasse. Nenhum”.

Tina diz a Loder, socando seu punho na mesa para enfatizar, que sofreu “muitos desgostos”.

“Analisei isso e me perguntei ‘o que há de errado comigo?’”. Eu me olhava no espelho sem make-up e sem cabelo. Por que alguém não consegue ver a beleza na mulher... que eu sou?”.

A cena final do documentário apresenta o marido de Tina, Erwin Bach, e sua propriedade em Zurique. “Eu precisava realmente de amor. Necessitava amar alguém”, diz ela, lembrando seu primeiro encontro com ele, quando o ex-executivo de uma gravadora foi buscá-la ao chegar em Düsseldorf, na Alemanha.

“Amor. É o que temos um pelo outro”, diz Bach, com quem Tina se casou em 2013. “Sempre me refiro a isto como uma carga elétrica”.

Quanto ao ex-marido, que morreu em 2017, Tina diz que o perdoou. “Perdoar significa não se aferrar ao passado, esquecer”.

“Tive uma vida repleta de abusos. Não há outra maneira de contar a história. É uma realidade. É uma verdade".

O documentário termina com uma cena de Tina chegando ao teatro para a estreia do musical de Hall, quando é aplaudida de pé. O documentário e a peça, diz Bach, “são um desfecho”. À medida que Tina olha seu futuro longe da vida pública, ela reflete sobre a maneira mais bela de fazer isto.

“Algumas pessoas dizem que a vida que eu vivi e os shows que dei, o apreço das pessoas, são permanentes e eu deveria me orgulhar disto”, diz ela. “Eu me orgulho. Mas quando você deixa de ser orgulhoso? De que maneira você se retira lentamente?” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Tudo o que sabemos sobre:
Tina Turnerdocumentário

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.