Gaetan Bally/Efe
Gaetan Bally/Efe

A herança de Claude

Suíço que morreu na quinta, aos 76 anos, foi o grande responsável pela popularização da MPB no cenário artístico europeu

Jamil Chade, correspondente,

12 de janeiro de 2013 | 07h00

GENEBRA - Um dos grandes responsáveis por abrir as portas do mundo para a música brasileira morreu na noite de quinta-feira, no Hospital Universitário de Lausanne, na Suíça. Claude Nobs, fundador do Festival de Jazz de Montreux, ficou 17 dias em coma após um acidente de esqui ocorrido na véspera do Natal, na pequena vila de Caux. O suíço de 76 anos deixa um dos eventos mais prestigiados da música no planeta, um dos maiores acervos audiovisuais do século 20 e um palco que se confunde com a própria história da MPB.

Nobs, filho de um padeiro, foi chamado nos anos 60 ao pequeno vilarejo de Montreux para trabalhar como cozinheiro nos hotéis da cidade. Mas, pouco tempo depois, foi convidado pela prefeitura local para ajudar a criar alguma estratégia para chamar a atenção de turistas para a cidade aos pés dos Alpes e à beira do Lago Leman. Nobs, apaixonado pela música, sugeriu criar um festival de jazz e chamar os maiores músicos da época.

O projeto chegou a ser alvo de ironia, diante do improvável sucesso em conseguir convencer que os grandes astros viajassem até um vilarejo no meio das montanhas suíças. Nobs não desistiu e viajou até Nova York para convencer os patrões da Atlantic Records a apoiar o projeto.

Funcionou. Em 1967, subiriam ao palco os primeiros astros e, poucos anos depois, uma leva sem precedentes de brasileiros chegaria a Montreux, convidados por Nobs, um pioneiro na promoção da MPB. O festival abriu suas portas para João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Chico Buarque e Caetano Veloso. Vários deles chegaram a gravar discos ao vivo no evento que acabariam marcando suas carreiras. Para os próprios músicos, foi a iniciativa de Nobs que permitiu que a MPB, já com êxito nos EUA, passasse a fazer parte do cenário artístico europeu.

Anos depois, grupos como Skank e artistas como Elba Ramalho e dezenas de outros fariam a viagem até os Alpes. "No mundo, existe a salsa, o rock, o jazz. Mas o Brasil é o único país que é um estilo de música por si só", declarou Nobs ao Estado em entrevista em 2004. "No Brasil, sempre há o surgimento de novos músicos de alta qualidade", contou, indicando que frequentemente viajava para "ouvir o País". Em alguns anos, o festival chegou a contar com quatro noites inteiramente dedicadas à MPB.

O próprio Gilberto Gil confessou em entrevista ao Estado que foi justamente o festival de Montreux que o convenceu, nos anos 70, a continuar sua carreira como cantor. "Estava decepcionado e tinha muitas dúvidas se deveria seguir esse caminho. Mas, depois de participar do festival, muitos amigos meus vieram me dizer que eu precisava continuar", declarou em 2007. A amizade entre Gil e Nobs ainda permitiria que o brasileiro levasse a mostra ao Brasil.

Ao longo dos anos, a dimensão que o evento ganhou saiu de todas as previsões. Se sua primeira edição foi realizada em três dias, hoje ele dura mais de duas semanas. Considerado o anfitrião ideal para lidar com personalidades egocêntricas e exigentes, Nobs acabou se tornando amigo pessoal de Freddie Mercury, David Bowie e Quincy Jones. O suíço era conhecido por levar seus convidados mais explosivos para passar uns dias em seu chalé nas montanhas, cercado de um silêncio absoluto, e pelo seu poder de transformar os mais excêntricos em amigos.

Nos últimos 15 anos, porém, o festival passou a ser criticado pelos amantes do jazz e Nobs foi acusado de ter distorcido o sentido do evento e aberto as portas para grupos com êxitos efêmeros e qualidade discutível. Mesmo assim, sua estratégia uma vez mais funcionou e o número de frequentadores explodiu.

Ao Estado, Nobs se defendia dos ataques, alegando que a palavra "jazz" precisava ser tomada em seu "contexto mais amplo". Já em 2010, começou a admitir que deveria retirar a palavra "jazz" da mostra.

Admirado ou criticado, a realidade é que, nos mais de 40 anos do festival, Nobs conseguiu trazer para seu vilarejo nomes como Miles Davis, James Brown, Ray Charles, Eric Clapton, Prince, Bob Dylan, B.B. King, Oscar Peterson, Nina Simone, Leonard Cohen, Santana, Rolling Stones e Keith Jarrett.

Diante do que ele via que estava ocorrendo, o suíço rapidamente decidiu gravar todos os concertos realizados sob sua administração e passou a guardá-los em um cofre em sua casa. Hoje, o acervo é um dos mais importante da música do século 20.

Funky Claude

Em 1971, um incêndio destruiu o Casino de Montreux onde Frank Zappa fazia um show. Nobs abandonou sua posição de produtor, entrou no local e salvou várias pessoas das chamas. Ninguém morreu.

Claude Nobs seria eternizado como Funky Claude em uma canção do Deep Purple. Para arrecadar dinheiro para a reconstrução do espaço, a banda aceitou realizar um show na cidade e compôs a canção Smoke on the Water, que conta a história do incêndio à beira do lago. Nela, Nobs é homenageado. "Funky Claude was running in and out/ pulling kids out the ground."

Vários tributos estão sendo programados em sua homenagem na Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. "Claude construiu o Rolls-Royce dos festivais no mundo. Vai ser difícil imaginar o evento sem ele", escreveu ontem Quincy Jones nas redes sociais.

Mas a mostra não vai parar. Nobs havia lançado a marca Montreux Jazz e começava a levar o festival para várias regiões do mundo. Criou ainda um Montreux Café, que iniciava sua expansão e abertura de franquias em diversas cidades.

Claude Nobs deixa como herança a transformação do nome de um vilarejo em referência na música internacional e um dos festivais de maior prestígio do mundo. Mas também deixa como herança a maior plataforma internacional que já existiu para os músicos brasileiros do século 20.

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