Bernardo Doral/ Divulgação
Bernardo Doral/ Divulgação

A herança de Buika

Cantora cult paparicada por Almodóvar e comparada a Nina Simone estreia no Brasil

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h12

Concha Buika usa o sobrenome como cartão de visita artístico. Ela vem de um matriarcado que emigrou da Guiné Equatorial para a ilha de Palma de Mallorca, Espanha. Buika era o sobrenome da avó. A cantora, que não raro consideram como "a Nina Simone da Espanha", está vindo pela primeira vez ao Brasil. Canta nos dias 19 e 20 no Tom Jazz. Naquela cena do filme A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar, na qual há uma festa em que se inicia a tragédia da filha adolescente do protagonista, era Buika quem cantava no salão. Une o legado afro hispânico com a contemporaneidade europeia. Raras vozes na cena moderna alcançam a plenitude e o sentimento da voz de Buika, que transpassa de maneira única gêneros como jazz, flamenco, músicas africana e cubana.

Você conhece cantoras brasileiras? Omara Portuondo fez um disco muito belo com Bethânia.

Todo mundo conhece os cantores brasileiros, todo mundo conhece Maria Bethânia. Não a conheço pessoalmente mas, quando se escuta a música, já se sabe que é maravilhosa.

Você tem um disco novo, La Noche más Larga, no qual faz muitas músicas com o acompanhamento de um pianista, o maestro Ivan Lewis. É o que você gosta mais, esse formato que consagrou Ella, Billie?

A verdade é que gosto de tudo: gosto desse formato ao piano, mas também da música eletrônica, das big bands, de duos, de trios com percussão. Eu sou uma nota livre, gosto de voar sobre todas as coisas.

Você é de Palma de Mallorca. Reconhece algo de suas origens no seu trabalho?

A origem é importante e sempre vai plasmar tudo que fazemos. Ainda que não pareça, no trabalho da gente sempre há segredos, sempre vão luzir pequenas luzes que representam o lugar onde você nasceu, as cores da tua terra. Há muita influência da minha terra no meu trabalho.

Você começou cantando em bares, pubs, origem muito comum e heroica também. Quando se deu conta que podia fazer disso uma carreira profissional?

Mas a verdade é que não me dei conta. Outro dia, estava pensando: tenho que me virar. Ouça: tenho 41 anos e sinto que sou uma jovem promessa. Nessa vida, aos 41 anos você é uma jovem promessa. Do que seja, mas é assim. Esse é o princípio da tua vida, eu o sinto assim. Então eu não perguntei nada. Eu me pus a cantar porque me dava dinheiro e em casa faltava dinheiro. Éramos muitos irmãos, sete, não havia pai, minha mãe trabalhava muito e não podia sustentar. Então, eu comecei a trabalhar para levar dinheiro para casa, e segui, e segui, e segui. E aqui estou eu hoje. Porém, eu nunca me perguntava se eu queria ser cantora.

O título do seu disco, La Noche más Larga, é também muito amplo. O que significa para você?

Para mim, é como uma utopia. Porque a noite comprida não existe. Para mim, as noites são muito curtas. Duram muito pouquinho e, se você está desfrutando dela, mais curtas parecem. Então, para mim, era simplesmente uma frase que falava dessas noites nas quais é tolice gastá-las inteiras discutindo sobre o amor com seu companheiro, porque logo tudo termina na cama, e bem, como sempre. É besteira, porque tudo é apenas um momento.

Você trabalhou com La Fura del Baus. É um teatro físico muito conhecido no Brasil e na Argentina. O que você fez dessa experiência no teatro, como se desenvolve hoje?

Eu respeito muito o pessoal do teatro, porque é uma gente muito valente. Sei que na tua terra também se faz um teatro de grande qualidade e muito resistente, com propostas muito fortes. Não sou atriz, não me considero capaz. Mas sempre participo quando me chamam para colaborar com as ideias de pessoas que estão muito loucas, que defendem isso com tanto carinho. Eu sempre estarei ali, papi, porque é uma arte muito pura.

Quando você atuou em A Pele que Habito, você era muito expressiva em cena, dominava a tela grande.

Bom, o que faço para dominar a tela é fechar os olhos e esquecer que estou ali. Sou muito tímida, papi! Tenho muita vergonha das câmeras. Fecho os olhos e canto (risos).

Suas canções, como La Niña Lola, são muito tocantes e fazem muito sucesso tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. É a mesma coisa para você cantar na Espanha e em lugares como o Brasil e os Estados Unidos?

Sim, porque todos somos o mesmo, papi. Onde quer que vás, quem quer que encontres, você sabe que está lutando para viver, você sabe. É igual nos Estados Unidos, na China, no Brasil, no Peru. Está cada vez mais duro lutar, papi, para levar o pão para casa, para que a família fique contente, para que se comporte bem. Creio que estamos, todos os seres humanos, vivendo esse grande medo, tentando chegar à noite e dormir tranquilo.

A situação é muito dura na Espanha atualmente.

Seria muito bom que vocês se encontrassem com alguns compatriotas nossos para contar-nos o que fizeram, porque soube que o Brasil no passado também viveu momentos muito difíceis e que, com muita luta e esforço, saiu disso. Conseguiram que a coisa não piorasse. É bom quando nos pomos em contato com países irmãos para que nos ajudem.

Você gravou Don't Explain, de Billie Holiday, que já foi gravada por tantas mulheres. Qual é o significado da canção para você?

Essa música é importante porque eu sinto que fala do que não devemos deixar passar. Há pessoas que nos dominam, que nos controlam, que têm a capacidade de fazer com que duvidemos de nós mesmos. Pode ser um marido, uma esposa, um pai, um amigo. É uma coisa estranha, que não te deixa respirar. A mensagem dessa canção é uma mensagem errônea, que não é legal dizer para uma pessoa: faça comigo o que você queira. Nina Simone utilizava a música para tirar a dor do coração. Contava nas canções o que não se atrevia a falar, que tinha momentos duros, uma vida complicada.

BUIKA

Tom Jazz. Avenida Angélica, 2.331,

Higienópolis, 3255-0084.

Dias 19 e 20, às 22 h. R$ 220 (couv. art.).

www.tomjazz.com.br

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