A força do Sa grama no "Auto da Compadecida"

Pode-se relacionar ao filme O Auto da Compadecida, baseado na obra de Ariano Suassuna e dirigido por Guel Arraes, uma série de conquistas para o cinema brasileiro. Atraiu um público recorde para salas de cinema e provou que a produção nacional, além de talentosa, pode também render boa bilheteria. Faz parte desse conjunto bem-sucedido a trilha sonora, composta e tocada pelo grupo pernambucano Sa grama. A música, nesse caso, é muito mais do que um pano de fundo para a narrativa. É o que se ouve no CD, de nome homônimo ao longa-metragem, lançado pela gravadora Natasha Records."Recebemos o filme sem música nenhuma. Entramos no estúdio e começamos a interpretar aquelas cenas através da música", informa Sérgio Campelo, flautista e diretor artístico do conjunto. Foram mais de 30 vinhetas compostas para o filme produzidas durante três dias intensos de trabalho. No disco, foram selecionados 14 temas, que também precisaram ser readaptados para o formato do CD. "Além de uma infinidade de músicas escritas para O Auto, preenchemos a história com percussão, toques soltos de instrumentos e incluímos composições prontas do Sa grama, que estão nos nossos outros dois discos."O grupo nunca havia composto para longa-metragem. Teve experiências com vídeo, nos trabalhos Seletas Gilbertianas, Carnavais e A Estética do Cangaço; com teatro, nas peças Terra Adorada, Mamulengo Só Riso, A Máquina e A Ver Estrelas (ambas dirigidas por João Falcão); e com dança, na coreografia Perna de Palco. "Para nós, foi muito especial e feliz dar a nossa interpretação a um trabalho desse porte, justamente porque a música tem fundamental importância: ela define parte da emoção, seja a tristeza ou a euforia", analisa Campelo. João Falcão e Carlinhos Borges, os produtores musicais do filme, chegaram até eles. A partir daí, o trabalho foi, segundo Campelo, intenso e sintonizado. "Até por isso ficamos 12 horas por dia gravando. Foi um período interessante porque alguns atores chegaram a nos mandar recado explicando o porquê de certos trejeitos e sugerindo que a música acentuasse esses pontos." Quando se ouve o segundo tema do CD, Presepada, de Campelo para João Grilo, compreende-se isso. A música traduz o jeito irreverente, inteligente, esperto e malicioso do personagem.Caráter cômico - O grupo acredita que a música feita para O Auto da Compadecida tem um caráter mais cômico que as outras composições do Sa grama. "O filme tem muito da malandragem sertanista, com as presepadas do nordestino, e a nossa música reflete isso. Ela ficou bem mais pra cima do que nos outros discos", afirma Campelo. Embora o estímulo da imagem tenha sido importante, o trabalho do conjunto é bem mais completo. Mesmo sem a presença da imagem, a sua música é bastante visual, levando o ouvinte a um passeio pela cultura popular brasileira por meio de uma vestimenta sofisticada, em muitos momentos, erudita.A matéria-prima do Sa grama é a cultura popular. O grupo utiliza elementos sonoros do folclore e lhe dá um tratamento refinado. Isso se explica pela formação única do conjunto, semelhante a uma pequena orquestra de câmara. Ele é composto por Sérgio Campelo (flautas), Frederica Bourgeois (flautas), Fábio Delicato (violões), Cláudio Moura (violão e viola nordestina), Crisóstomo Santos (clarinete), Antonio Barreto (marimba e percussão), Homero Basílio (percussão), Gilberto Campello (percussão) e Thiago Founier (contrabaixo acústico).O Sa grama nasceu no Conservatório de Pernambucano de Música, em 1995. "Começamos, a princípio, com música erudita brasileira. Tocávamos Villa-lobos, Camargo Guarnieri, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Ernesto Nazaré e outros. Foi depois que entramos de vez na música popular e fomos aos poucos introduzindo a nossa música", conta Campelo, que é professor de flauta transversal no conservatório desde 1989. "E fomos fundamentando a nossa composição na pesquisa da cultura popular."Essa pequena formação orquestral, que faz música popular com um tratamento sofisticado, mas não somente erudito, é essencialmente a mesma desde esse período. A química do grupo se fortalece pelo fato de parte de seus integrantes ser mestre e outra, aprendiz. Frederica foi aluna de Sérgio e Gilberto Campello especializa-se em percussão com Antonio Barreto. Mas, como pondera Sérgio, não há solista especial. "Existe, sim, o cuidado de trabalhar as harmonias e melodias com cores diferentes, de mostrar a combinação dos timbres, por exemplo, da marimba com o clarinete. A gente gosta de jogar com essas sonoridades, extraídas tanto de um instrumento erudito quanto de um popular", diz ele. "Foi o que observamos na Orquestra Sinfônica e trouxemos para o Sa grama. Mas sempre estamos atentos à cultura popular", afirma Antonio Barreto, também timpanista e percussionista na Orquestra Sinfônica do Recife e professor de percussão no Conservatório Pernambucano de Música.O Sa grama não toca somente ciranda, coco, maracatu ou choro. "Há toda uma preparação para chegar até a coisa autêntica do ritmo da ciranda, como um abertura elaborada ", diz Sérgio. "Por isso, a importância da qualidade de cada instrumentista, para lidar com a improvisação, com a leitura de uma partitura e, principalmente, com as nossas raízes, pois estamos também fazendo um trabalho de resgate."A singularidade desse trabalho está nos dois discos do grupo, lançados independentemente e que podem ser comprados pela Internet, www.sagrama.com.br. O primeiro, de nome homônimo, está mais perto da rua. Os temas passeiam pelas festas populares - baião, frevo, coco, aboio, maracatu de baque virado e manifestações próprias de Pernambuco, como samba de matuto e os caboclinhos do Recife. O segundo, Engenho, lançado há um ano é mais lírico. "Ele tem um lado mais camerístico e as composições são mais difíceis", analisa Sérgio. "Mesmo a erudição estando mais presente, a principal referência, a cultura popular, está lá."

Agencia Estado,

01 de janeiro de 2001 | 17h53

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