Daniel Teixeira/ Estadão
Daniel Teixeira/ Estadão

A força das cirandas de Lia de Itamaracá é retratada em exposição no Itaú Cultural

Aos 78 anos, cirandeira pernambucana tem sua trajetória revista em mostra e aproveita para cantar e dançar em série shows

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2022 | 05h02

Uma voz que leva a cultura popular para além de terras brasileiras. Cantora e compositora, dona Lia de Itamaracá se transformou em uma referência reconhecida nacionalmente ao interpretar cirandas, um ritmo que convida o público a entrar na roda e se divertir com as cantigas. Para homenagear a artista pernambucana, o Itaú Cultural realiza a mostra Ocupação Lia de Itamaracá, que ficará em cartaz até 11 de julho e contou com curadoria da cantora Alessandra Leão, da jornalista Michelle de Assumpção e da instituição. “Para mim é uma honra ter essa exposição, na qual o pessoal vai poder ver como é meu trabalho e como tudo se deu”, diz dona Lia, de 78 anos, ao Estadão

Dividida em três eixos, Sal, Som e Sol, a mostra faz um retrato da vida e obra de Lia de Itamaracá. “O povo vai poder ver o material da Casa de Lia, vai ter roupas, vestidos, vídeos, CDs, livros e acessórios”, conta a homenageada, sobre o material que integra a mostra que veio de sua própria casa e do Centro Cultural Estrela de Lia, que foi criado para abrigar obras e trabalhos de sua trajetória. 

A exposição

Ao percorrer o espaço expositivo, o público começa entrando na seção Sal, na qual há imagens diversas, além da parte audiovisual, que retratam a vida de dona Lia. Entre fotografias e telas, estão detalhes e objetos que fazem parte da trajetória da artista, além de curiosidades, como o certificado mostrando que Lia é descendente do povo djoula, da Guiné-Bissau. 

Passando para o eixo Som, o tema aqui é a veia musical da homenageada. Será um mergulho na obra de Lia, que é conhecida como Rainha da Ciranda, título que deu nome a seu primeiro disco, lançado em 1977. O ritmo, aliás, foi reconhecido como Patrimônio Imaterial do Brasil, em agosto de 2021. E é aqui que a exposição revela a versatilidade de Lia de Itamaracá. Pois essa artista popular, com sua voz irradiante e sua dança que cativa, experimentou se apresentar, em 1988, no festival Abril Pro Rock. E agora, em seu trabalho mais recente, Ciranda Sem Fim, lançado em 2019, ela contou com produção do DJ Dolores. Trabalho bem-recebido pela crítica, e público, foi reconhecido e premiado pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). 

Chegando ao eixo Sol, o visitante vai conferir a real importância do trabalho de Lia de Itamaracá. Aqui, a ideia dos curadores foi dar visibilidade a tudo que ela conquistou com sua música. Mas também o que a fez ir além e ser convidada a integrar obras cinematográficas, como o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ser tema de bloco de rua paulista, em 2020, e ainda figurar na passarela da São Paulo Fashion Week (SPFW), na qual mostrou sua música no ano passado. E Lia também estará nas telas, pois gravou participação em uma série da Netflix, ainda sem mais informações.

 

“Lia de Itamaracá é uma potência, uma artista imensa, uma tradição viva, e isso nos motivou a dedicar esta 55.ª edição da série Ocupação para que o público possa celebrar e mergulhar na trajetória e na obra dessa fundamental e importante artista para a música brasileira”, diz Andreia Schinasi, coordenadora do Núcleo de Música do Itaú Cultural, que integra a curadoria da mostra.

Mas Lia de Itamaracá estará lá não somente por ser o tema da exposição, ela também preparou algumas apresentações que prometem fazer o público entrar na roda da folia. A cirandeira vai fazer shows a partir de hoje, 21, até o dia 24 (6.ª e sáb., 20h; 5.ª e dom., 19h) e, na sequência, de 28/4 a 1.º de maio (5.ª a sáb., 20h; dom., 19h). Nos dias 22 e 29 haverá transmissão das apresentações pelo canal do YouTube do IC. E Lia avisa: o público que se prepare, pois “quem gosta de ciranda entra logo na roda”. 

Para a artista, que começou a se interessar pela ciranda ainda menina como ela conta, o ritmo é uma dança de roda que começa pelas crianças até chegar aos adultos. “A ciranda não tem preconceito, dança todo mundo e todos se dão as mãos”, explica Lia. Esse caminho que escolheu seguir teve impulso nos anos 1960 com a música que ressoou pelo País na voz de Teca Calazans, nos versos, a saudação à cirandeira. “Eu estava na beira da praia / ouvindo as pancadas das águas do mar / Essa ciranda quem me deu foi Lia / que mora na Ilha de Itamaracá.” 

Ocupação Lia de Itamaracá

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, piso térreo, tel. (11) 2168-1777.

3ª a sáb., 11h/20h; dom. e fer., 11h/ 19h. Gratuito (necessário comprovante de vacinação). Até 11/7

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.