A festa de Paul McCartney

Beatle realiza um show de excelência musical, equilibrando clássicos e novas canções

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2014 | 00h34

Não é todo dia que se pode ouvir, 52 anos depois de seu início na música, um show com quatro canções novíssimas de Paul McCartney. Out There!, o show que ele mostrou a noite passada para 45 mil pessoas na Arena do Palmeiras, em São Paulo, teve o componente da novidade. Mas também muito mais. E hoje outros 45 mil fãs poderão ser os contemplados.

“Vamos dar uma festa esta noite em São Paulo”, disse Paul McCartney, em português. Desde o início, com Eight Days a Week, ficou claro que seria mais que uma festa: a dedicação operária de Paul a cada música, a cada repetição cênica de coisas muito ouvidas e muito vistas é de uma generosidade sem paralelos. Mas também a demonstração de seu talento inesgotável é de deixar boquiaberto, como a pegada moderna e clássica ao mesmo tempo de canções novíssimas, como Queenie Eye.

A harmonia entre canções de cinco décadas é outro espanto. Os berros lancinantes de Paul em Maybe I’m Amazed parecem reaparecer para provar que ele foi o inventor, o primeiro a dar sentido ao grito primal, ao berro, a coisas que viraram totens depois. Ainda assim, ele celebra os outros notáveis da música, como Jimi Hendrix, a quem presta tributo. 

Anuncia que usa a mesma guitarra dos anos 1960 para tocar Paperback Writer, e poucos se dão conta daquela dádiva histórica – não é só o instrumento original que está ali, mas também a pulsão original. Apesar de novos truques de cena, Out There! é hoje um dos poucos espetáculos de estádio, de arena, que se apoia inteiramente na música, e não em elementos de décor.

Há um set novo, em que Paul é colocado num púlpito que se ergue acima do palco para um momento acústico. “Essa é sobre direitos civis”, ele anuncia, e canta Blackbird, de 1968. Depois, agora em português, anuncia: “Essa música é para meu querido amigo John (Lennon, morto em 1980)”. E canta Here Today. “Essa música é do nosso novo CD”, e canta New (nesse momento, um pequeno apagão no telão direito, mas coisa sem importância).

Ele homenageou também outro beatle, George Harrison, que morreu em 2001. Quando Paul, segurando um ukulele, disse “Esta canção é para meu amigo George”, todos sabiam que era Something, de 1969. “Ele tocava ukulele muito bem”, disse, em inglês, sobre o amigo. 

“Essa é para a molecada.” E aí vem All Together Now, de 1969, uma canção para a garotada eterna do pop. As muitas crianças na plateia dançam com os pais, os velhotes também dançam. Os meninos da banda Cachorro Grande, na plateia, surtam quando ele inicia Lady Madonna. Várias divas aparecem no telão: Billie Holiday, Frida Kahlo, Twiggy, Audrey Hepburn, entre outras, vão desfilando atrás dele.

Os músicos de Paul já são amplamente conhecidos, mas é impressionante o papel central que o baterista Abe Laboriel Jr. adquiriu na trupe. É a alma do negócio, com sua pegada mais demolidora, mas ao mesmo tempo o timing perfeito para acompanhar o chefe. 

Os muitos “boa noite, paulistas”, as aulas de paulistanês que o levaram a chamar a cidade de “Sampa”, tudo é parte do seu esforço cavalheiresco de sempre. Mas é na riqueza melódica e harmônica que seu circo leva pelo mundo, essa coisa inaugural na música pop, que está a sorte dos que vieram até o veterano de Liverpool.

A chuva refrescou levemente quase todo o show, mas na hora do coral da multidão, em Hey Jude, aí já foi debaixo de um grande toró. Nada abalava o público, que acendeu a lanterna dos celulares para Let It Be e vibrou com os manjados fogos de artifício de Live and Let Die. O fogo nunca apagava.

Muita gente que já estava fora do estádio voltou ao ouvir os primeiros acordes de Yesterday. “Sampa, let’s rock!”, anunciou Paul, antes de tocar Helter Skelter. / COLABORARAM GUILHERME SOBOTA E JOÃO PAULO CARVALHO

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