A evolução da música popular brasileira em um século de eletricidade

Show 'Luz & Som – Um Século de Música Brasileira em Uma Noite' será apresentado nesta terça, 20 de novembro, no Teatro Alfa

Lauro Lisboa Garcia - Especial para o Estado de S. Paulo,

20 de novembro de 2012 | 16h02

Ao longo do século do progresso, a música brasileira (e do mundo) passou por transformações significativas na forma de ser criada, difundida e ouvida. As tecnologias que promoveram essas mudanças – com a criação de microfones, gravadores, amplificadores, aparelhos reprodutores de som e imagem, discos, CDs, DVDs, internet e afins –, obviamente não surgiriam nem se desenvolveriam sem eletricidade. O advento dessa invenção motivou um projeto especial do pesquisador, jornalista e produtor Zuza Homem de Mello, para celebrar os 100 anos de criação de uma empresa fornecedora de energia, a CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz), com um panorama da evolução da música popular brasileira nesse mesmo período.

Tendo os atores Marisa Orth e Carlos Casagrande como apresentadores, o show Luz & Som – Um Século de Música Brasileira em Uma Noite será apresentado nesta terça, 20 de novembro, no Teatro Alfa, só para convidados, mas vai ser gravado em DVD e distribuído como brindes da empresa e para escolas de música. Os arranjos e direção musical são do maestro Amilson Godoy, que vai reger a Orquestra Sinfônica Arte Viva. O cenógrafo Gringo Cardia divide com Zuza a direção do espetáculo.

Gringo também criou o projeto gráfico do programa do show e profissionais de sua companhia realizaram minuciosa pesquisa de imagens históricas desses 100 anos, que serão projetadas em telão durante as falas dos apresentadores, que lerão textos de Zuza adaptados por um roteirista, que costuram o show com referências históricas. Há também dançarinos em alguns números.

Em vez de uma grande estrela, que faria apenas seu show convencional, Zuza optou por reunir novos e alternativos nomes da cena musical para interpretar clássicos que começam na era do lundu, do choro, da polca e do maxixe, seguem pelas descobertas do samba, do baião e da bossa nova, lembram famosas marchinhas de carnaval e os momentos de repressão política nos tempos dos festivais, e vêm até o mix de rock, pop, soul, funk e rap, que corre paralelamente desde 1965, se firma nos anos 1980 e vem até os dias de hoje, como movimentos abertos e/ou influenciados pela jovem guarda e pelo tropicalismo.

Nos anos de chumbo, da ditadura militar, muitos compositores tiveram de deixar o País, então foi a oportunidade de outros, vindos do Nordeste, como Alceu Valença, Dominguinhos e Morais Moreira, se estabilizarem no Sudeste. São eles que representam o regionalismo nos anos 1970, paralelamente ao período de pressão da censura no País.

"Já o ponto de partida foi diferenciado do que normalmente ocorre entre os empresários que convidam grandes astros para uma festa, seja uma Ivete Sangalo ou um Roberto Carlos. São tipos de shows que não têm nada a ver absolutamente com a empresa", diz Zuza. "Vi shows de alguns artistas que no início da apresentação faziam alguma coisa comemorativa, mas depois vendiam o peixe deles: ou o último disco, ou coleção de sucessos. Nesse caso, essa idéia foi de cara descartada", conta. "Além disso pensei em artistas que pudessem se enquadrar em momentos marcantes da música brasileira".

O roteiro é dividido por blocos e as cerca de 50 canções representativas de cada período e estilo serão interpretadas pelos cantores Pélico, Filipe Catto, Silvério Pessoa, Marcos Sacramento, Mariana Aydar, Bruna Caram, Zé Renato, Alfredo Del Penho, Pedro Paulo Malta, Renato Braz e Soraya Ravenle. "O elenco se caracteriza por não ter nenhum nome consagrado na mídia, no sentido comercial", diz Zuza.

O primeiro dos momentos históricos foi "confluência da música africana com a europeia, que acaba descambando na música brasileira depois de alguns anos". E para envolver o público nesse "ambiente afro", quem comanda o ritmo é o percussionista Da Lua. "O lundu veio da África, a modinha veio de Portugal, e aquilo vai se misturando no caldeirão brasileiro, até que surge um ritmo, um gênero chamado maxixe, que acaba sendo tipo exportação, da mesma forma que o tango", ensina o mestre. "É inacreditável a gente falar isso, porque durante muito tempo a música brasileira tentou ser exportada, mas só conseguiu isso como deveria depois do João Gilberto, com a bossa nova. Então, entre 1920 e 1962 só saíram daqui o 'Tico Tico no Fubá' e a Carmen Miranda".

Filipe Catto e Pélico vão fazer as vezes de Mário Reis e Francisco Alves, cantando Sinhô (Jura e Gosto Que Me Enrosco). A década do carnaval (1930), terá Braguinha, Lamartine Babo, Noel Rosa e outros nas vozes da dupla brejeira do musical Sassaricando (Alfredo Del Penho e Pedro Paulo Malta). "Na década de 1940, a música se solidifica, o rádio passa a ser o principal meio de divulgação e então surgem os cantores ídolos, não compositores", diz Zuza. "Surgem Orlando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Gilberto Alves, e entre as cantoras, Carmen Miranda ainda pegava um rabinho". Para representá-los, Zuza juntou Zé Renato, Soraya Ravenle, Mariana Aydar e Marcos Sacramento, cada um com uma canção e todos juntos em Cantores do Rádio (Lamartine Babo/João de Barro/Alberto Ribeiro).

Silvério Pessoa e Bruna Caram se encarregam de representar o baião, de maneira diferente da que fazia Luiz Gonzaga. Paralelamente à ascensão do baião, na década de 1950, há o samba-canção e a dor-de-cotovelo, tema caro a Zuza, que está escrevendo um livro sobre esse gênero. Zé Renato, Filipe Catto e Mariana Aydar são os cantores escolhidos para esse bloco. "Estamos usando a mesma ideia do Teatro de Arena, ou seja, os cantores fazem vários papéis e nenhum deles é ele mesmo, a não ser no último número, em que cada um interpreta uma música de seu repertório".

Caracterizados como João Gilberto, de terno e gravata, Renato Braz (voz), Edmilson Capelupi (violão) e Proveta (clarineta) interpretam Chega de Saudade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) e Acontece Que Eu Sou Baiano (Dorival Caymmi). "Renato canta igualzinho ao João. Aí é que está o achado. É impressionante. E o violão do Edmilson é exatamente igual também".

Qualquer especialista que de dispuser a traçar um panorama amplo da música popular no Brasil vai, naturalmente, se deparar com um grande problema: o repertório de canções imprescindíveis é vasto demais para caber em pouco mais de uma hora e meia de show. Para Zuza, em muitos casos foi "uma escolha de Sofia", ou seja, ele passou pela dor de preferir um "filho" ao outro. "Há o problema de algumas músicas serem muito longas. E não dá pra cortar um Domingo no Parque (Gilberto Gil)", diz Zuza. Então se não dá pra entrar inteira, fica de fora. No bloco da era dos festivais, a solução foi colocar apenas a introdução de Disparada (Geraldo Vandré/Théo de Barros). Mas a história está bem contada e no grand finale, com todos os intérpretes juntos, em ritmo de valsa ("um gênero leve muito apropriado para qualquer celebração"), há canções que selam a comemoração centenária falando do tema que a inspirou: a luz.

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