A coisa estava preta

A coisa estava preta

Disco Meus Caros Amigos trouxe mensagens políticas

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2010 | 08h00

Meus Caros Amigos é o primeiro respiro de moderada liberdade que Chico Buarque teve nos anos 1970. Perseguido pela ditadura, ele teve as canções da peça Calabar mutiladas, inventou um personagem (Julinho da Adelaide) para driblar a censura, foi exilado e gravou um álbum como intérprete, além de dividir o palco num show ao lado de Maria Bethânia, em 1975.

 

Não por acaso Meus Caros Amigos ficou empatado com Construção (1971) numa enquete entre os mais importantes críticos de música brasileiros feita pelo Sesc em 2006, para a série Disco de Ouro. São suas obras-primas. Tão ousado quanto o arranjo de Rogério Duprat para a faixa-título de Construção foi abrir o álbum de 1976 com a contundente O Que Será (A Flor da Terra), dividindo autoria e vocal com Milton Nascimento. Há outras mensagens políticas subliminares, como em Corrente e no sensacional choro Meu Caro Amigo (dele e Francis Hime), que é o recado de um exilado. A coisa realmente estava preta, como diz o verso que se repete na letra.

 

Boa parte do repertório reunia composições que Chico fez para cinema e teatro. Vai Trabalhar Vagabundo, Passaredo e A Noiva da Cidade fizeram mais sucesso do que os filmes a que foram destinadas. Basta Um Dia é da memorável peça Gota d’Água, de Chico e Paulo Pontes, protagonizada por Bibi Ferreira, e Mulheres de Atenas, um dos sucessos, também gravada por Ney Matogrosso, veio de Lisa, a Mulher Libertadora, de Augusto Boal. O romantismo irônico de Olhos nos Olhos arrebatou corações. E o Brasil respirou melhor com os ecos daquele disco de utilidade pública.

 

FAIXAS

O Que Será (À Flor da Pele)

O tema havia sido composto, incluindo variações, para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos. A participação irretocável de Milton Nascimento ocorreu por acaso. Chico e Francis estavam no estúdio gravando quando Milton passou por lá, ouviu a música, gostou e gravou.

 

Mulheres de Atenas

Composição feita para peça homônima, com direção de Augusto Boal, que, segundo músicos que trabalharam com ele, entendia muito pouco de música.

 

Olhos nos Olhos

Música belíssima por sua densidade emotiva, foi feita para Maria Bethânia. Graças a ela, o tema alcançou níveis astronômicos de sucesso na época.

 

A Noiva da Cidade

Mais uma parceria de Chico e Francis, foi composta para a trilha do filme de mesmo nome, dirigido por Alex Vianny.

 

Passaredo

Uma das composições mais perfeitas de Francis Hime, ganhou letra de Chico, na qual ele, na linha de Tom Jobim, desfila vasto vocabulário sobre espécies de pássaros. Obra-prima.

 

Meu Caro Amigo

Um dos choros mais famosos do cancioneiro brasileiro, com letra antológica.

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