A caótica performance do Beirut em Salvador

Grupo, que toca no Rio nesta segunda e em São Paulo na sexta, empolgou e decepcionou na Bahia

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S. Paulo

08 de setembro de 2009 | 10h51

"Foi o show mais estranho que já fizemos, provavelmente o pior." O autor da frase é Zach Condon, líder do Beirut, comentando, nos bastidores, o resultado da caótica apresentação do grupo na primeira noite do 16º Percpan - Panorama Percussivo Mundial, em Salvador, na sexta-feira passada. Com ingressos esgotados, Zach e sua trupe têm mais dois shows marcados para hoje no Rio, ainda dentro do festival (leia ao lado) e sexta em São Paulo. É provável que eles também façam um show extra no Rio. Vamos ver se sobrevivem à bebedeira.

 

Não que umas doses a mais sejam comprometedoras para a dinâmica de um show. Neneh Cherry, no Free Jazz Festival, e Michael Stipe (R.E.M.), no Rock in Rio III, aliás, até se beneficiaram das caipirinhas que entornaram em apresentações memoráveis. Alguns brasileiros também não têm o menor problema com a ingestão do conteúdo de seus copos em cena.

 

Mas Amy Winehouse perde para Zach Condon. Ele já estava sem voz e alteradíssimo quando entrou no palco do Teatro Castro Alves cantando uma de suas melhores canções, Nantes, com resultado decepcionante. A banda até teria modificado os arranjos de algumas canções para melhor se adequar à situação de seu homem de frente, mas claro que não resolveu o problema. Apesar da evidente altitude etílica da maioria dos músicos, até que eles tocaram bem os temas instrumentais. A situação piorava quando Zach, que continuava a beber em cena, tinha de usar o vocal.

 

Isso teria sido o de menos, não tivesse ele se empolgado demais chamando o público, falando em português, para subir no palco. "Vocês podem ‘ver’ aqui", repetiu algumas vezes, querendo dizer "vocês podem vir aqui". O que poderia ter virado uma festa (como eles dizem que normalmente acontece) revelou-se tragicômico. Em segundos o público invadiu o palco, o que deixou os músicos e a segurança do teatro perplexos.

 

Na muvuca um microfone desapareceu e até o fim do show, apesar dos insistentes pedidos dos contrarregras, não foi devolvido. Antes, logo no terceiro tema do roteiro, Zach já tinha convocado os jovens e eufóricos fãs que lotavam o teatro para se levantar, o que provocou uma avalanche na direção do palco. Até aí, beleza, quebrou o rígido esquema do teatro e o ambiente ficaria mais adequado para um show pop. Mas...

 

Absolutamente fora de controle, Zach ficou irritado porque a direção do teatro fez o público descer do palco e se recusou a apagar as luzes da plateia até o fim da apresentação. Incluindo uma versão trôpega de La Javanaise (Serge Gainsbourg) e Elephant Gun (conhecida por ter integrado a trilha sonora da minissérie Capitu), que o público cantou junto aos berros, o show acabou sem brilho. Teve até Happy Birthday to You para um dos músicos e outro que distribuiu cerveja para os fãs colados no palco.

 

O bis só viria se o tal microfone fosse devolvido, mas de novo o pedido não foi atendido. A produção precisou gastar muita saliva para convencer Zach a voltar ao palco, sozinho. Depois de muito tempo, balbuciando alguns versos e arranhando um cavaquinho, ele quase foi à lona, deixando nos fãs o gosto de sua ressaca. Não só por tudo isso, o Beirut pareceu uma banda melhor de se ouvir em CD de estúdio. No palco, a partir do quinto ou quarto número, as músicas soam muito iguais. Em certos momentos parece uma bandinha de Oktoberfest ou de mariachi. Utilizando elementos das fanfarras do Leste europeu, ao vivo o Beirut não chega a ser tão circense quanto o Gogol Bordello, mas não tem o refinamento de um Arcade Fire.

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