A bossa nova é também de São Paulo

A capital paulista foi onde o novo estilo encontrou pela primeira vez o sucesso

Paulo Cesar de Araújo,

26 de abril de 2008 | 19h36

Uma das mais evidentes provas de que São Paulo não é o ‘túmulo do samba’ está no fato de que foi em Sampa que, pela primeira vez, a bossa nova alcançou as paradas de sucesso e teve grande visibilidade. Sim, foi o público paulista, antes de qualquer outro do mundo, que primeiro avalizou a bossa nova. Isto aconteceu no fim de 1958, com o lançamento em São Paulo do single de João Gilberto que trazia de um lado Chega de Saudade, de Tom e Vinicius, e, do outro, Bim bom, do próprio João - primeiro disco dele na gravadora Odeon.  Ao longo do tempo, cristalizou-se uma visão que trata a bossa nova como um fenômeno carioca quando, na verdade, esta sonoridade expressa uma cultura musical de todo o Brasil, portanto, patrimônio nacional e agora universal. Criado por um baiano que morava no Rio, o novo estilo era, no início, restrito a jovens músicos que se reuniam em apartamentos da zona sul carioca - todos encantados com João Gilberto e procurando imitá-lo. Essa turma poderia crescer com a chegada daquele single trazendo Chega de Saudade. Na época, o lançamento de um artista carioca ou residente no Rio se dava primeiramente na sua praça e, só mais tarde, em São Paulo. E vice versa. As duas principais metrópoles do país eram ainda muito distantes entre si e, em conseqüência, havia uma profusão de ídolos locais, cantores muito conhecidos em um estado e praticamente desconhecidos no outro. Por isso, o disco do novato João Gilberto foi lançado inicialmente no Rio, onde a lógica indicava maior chance de sucesso. Entretanto, não foi o que aconteceu. Para desgosto do artista e da gravadora, seu disco foi um fracasso de venda e de execução. A opinião geral de disc-jóqueis e de lojistas cariocas era a de que o cantor não tinha voz, cantava num andamento e tocava em outro. Não teria o apelo comercial para disputar espaço com gravações de sambas, boleros e chá-chá-chás. Assim, o grande público continuava ignorando a bossa nova e ignorando seu criador.  Foi então que, no fim de 1958, a Odeon decidiu mandar João Gilberto para São Paulo, com o desafio de obter na terra dos bandeirantes o que não conseguira em casa. Há muitos anos é repetida uma frase que teria sido dita na época por um diretor de vendas da filial da Odeon em São Paulo: "É esta a merda que o Rio nos manda!". Pois foi exatamente em São Paulo que a tal ‘merda’ alcançou sucesso popular. Diferentemente do que ocorrera no Rio, disc-jóqueis paulistas como Hélio de Alencar, da Excelsior-Nacional, e Walter Silva, o Pica-Pau, da Rádio Bandeirantes, programaram Chega de Saudade. A aceitação do público foi imediata e outras emissoras começaram a também tocar o disco. Resultado: naquele ano, o single de João Gilberto se tornou recordista de vendas na Assumpção, que era a maior cadeia de lojas de discos e eletrodomésticos de São Paulo. Isto garantiu a João Gilberto a gravação do segundo single, com Desafinado e Oba lá-lá, lançado em fevereiro do ano seguinte e, logo depois, o tão sonhado primeiro álbum intitulado Chega de Saudade. A partir daí tudo se transformou. Depois da grande repercussão em São Paulo, o som de João Gilberto finalmente fez sucesso no Rio e em outras metrópoles do país. Foi em setembro de 1959, por exemplo, que Ronaldo Bôscoli e sua turma realizaram no Rio um badalado show intitulado 1º Festival de Samba-Session. Ou seja, tudo isso acontecia quando aquilo ainda nem era conhecido pelo nome de bossa nova - expressão que só pegou pra valer a partir do fim daquele ano. O fato é que São Paulo foi o primeiro grande pólo receptor da nascente bossa nova, como depois seria do tropicalismo e de outras vanguardas musicais, confirmando a condição de a cidade de melhor ouvido do Brasil. A partir de 1964, artistas cariocas como Nara Leão, Roberto Menescal e Marcos Valle freqüentavam cada vez mais os palcos e televisões paulistas. Era a época de concorridos shows como O Fino da Bossa e O Remédio é Bossa, no grandioso teatro Paramount. Tudo isso agora no rastro do estouro internacional do álbum que João Gilberto gravou nos Estados Unidos com Stan Getz, o Getz/Gilberto, que naquele ano entrou na parada da Billboard e ganhou vários Grammys. E assim, de música de apartamento no Rio de Janeiro, a bossa nova ganhava, definitivamente, os palcos, as ruas e todo o mundo. *Paulo Cesar de Araújo é historiador e jornalista, autor dos livros ‘Eu Não Sou Cachorro Não’ e ‘Roberto Carlos em Detalhes’.

Tudo o que sabemos sobre:
Bossa Nova

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.