A biografia artística de um criador incansável

O Aurélio consigna o substantivo feminino ?amélia?: ?Mulher que aceita toda sorte de privações e/ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem?, significado que descreve o comportamento da protagonista de Ai, Que Saudades da Amélia, samba composto por Ataulfo Alves e Mário Lago, em 1942. A personagem de fato existiu. Era a lavadeira de Almeidinha, irmão de Araci de Almeida, que lhe gabava ainda os dotes de cozinheira, arrumadeira e outras que tais, tudo sem achar ruim, e ganhando pouco. Na brincadeira na roda de amigos do Café Ópera, no centro do Rio, vaticinou-se: tão perfeita, não poderia ser de verdade. Daí para o samba foram uns poucos versos e alguns compassos, coisa simples, quase descompromissada que deu numa das canções mais conhecidas da história da música brasileira. Não foi o seu primeiro sucesso. Na quarta-feira de cinzas de 1940, havia composto, com Roberto Riberti, a marchinha Aurora, sucesso do carnaval do ano seguinte, nas vozes de Joel e Gaúcho, depois regravada por Carmem Miranda. Mário Lago tem cerca de 200 músicas. Considerado o tempo de atividade, pode não ser um número tão grande ? mas o tempo do compositor foi dividido com o do autor e ator de teatro, ator de cinema e televisão, advogado formado, embora de rala prática, funcionário público, apresentador de rádio, jornalista, escritor ? de memórias e poemas e a livros infantis ?, ativista político e até cantor, atividade iniciada tardiamente, em 1977. Filho do maestro Antônio Lago, atuante em companhia de operetas e também de cabarés, neto de músicos ? por parte de pai e de mãe ?, Mário Lago contava: quis ser artista desde menino, desde os tempos em que andava de pé descalços na Lapa onde nasceu e cresceu. Ao 7 anos, engoliu um guizo ? prova de que seria homem de festa, achava. Nasceu no dia 26 de novembro de 1911. Estreou como ator em 1916. É que, quando o pai viajava em montagens da companhia, a mãe e o menino, filho único, iam juntos. Um dia, o ator que fazia o filho de Madame Butterfly ficou doente. Mário Lago o substituiu. Intervalo. Quatro anos mais tarde, voltou à cena, dessa vez, cantando, vestido de marinheiro. Conta que o público começou a rir: nervoso, o garoto urinara na calça durante o número. Estreou como autor de revistas musicais em 1933 ? no mesmo ano em que se formara em Direito. Foi advogado por três meses. Assinou várias peças em parceria com Álvaro Pinto ? entre elas, Flores da Cunha, Figa de Guiné e Grande Estréia. Antônio Lago, o pai, fazia, entre outras coisas, testes para cantores nos teatros da Praça Tiradentes, no centro carioca. Francisco Alves foi um dos que passou pelo crivo do maestro. Por conta de cujos relacionamentos, o menino estabeleceu os seus próprios. Conheceu Custódio Mesquita e, com ele, em 1935, compôs a marcha Menina, Eu Sei de uma Coisa, versando sobre a vida de uma filha de militar que arrebanhava clientes num hotel de luxo. Custódio, grande compositor, era ótimo pianista. Tocava com as irmãs Carmem e Aurora Miranda, com Mário Reis e outros grandes do tempo. Mostrou a marcha para Mário, que a gravou, em 1936. Era a estréia do compositor. Antes disso, havia estreado como poeta, em 1926, publicando o poema Revelação, na revista Fon-Fon. Tinha 15 anos e a Fon-Fon era um das revistas mais importantes do Rio, cabe lembrar. Entre a estréia oficial como autor de musicais, escreveu esquetes que vendeu para custear a faculdade de Direito. Em 1929, arranjou emmprego no jornal O Radical. Primeira tarefa do repórter: cobrir um incêndio. O texto que produziu era literário demais. Segunda tarefa: acompanhar o motim de presos que culminou na Revolução de 30. Mário gostou do levante dos presos e não voltou à redação para escrever a reportagem. Mas descobriu a política e entrou para o Partido Comunista. Panfletando, na frente de uma fábrica, em 1932, foi preso pela primeira vez. ?Depois fui preso em 1941, 1946, 1949, 1964 e 1968?, contou ao Estado, há cinco anos. Esse parece ser o número certo das prisões ? sempre por motivos políticos ? de Mário Lago, embora em algumas ocasiões tenha declarado ter sido preso 13 vezes. Torcedor do Fluminense desde que se lembra, teve os primeiros tempos de vida descritos assim, por Pedro Nava: ?Vale dizer, em primeiro lugar, que Pedro Nava nasceu na Rua do Rezende, 150 ? rua que é uma das costelas da dupla espinha dorsal Mem de Sá-Riachuelo ? as granvias que cortam, em cheio, a Freguesia de Santo Antônio. Em Rezende e nas vizinhanças transcorreram a infância, mocidade e boêmia de Mário Lago: desde as aulas particulares no n.º 158 à barra do dia na praça de Santa Luzia, às madrugadas sonoras da Lapa (?A Lapa foi o chão de todos os meus passos?) e do bando entrando por Morais e Vale e clamando dentro da noite por Manuel Bandeira, que dormia lá em cima, no seu andar, como hoje dorme, profundamente, ?no fundo da treva, do chão, da cova?.? Nava escreveu por ocasião do lançamento do primeiro livro de Mário, Na Rolança do Tempo, em 1976, memorialista falando de memorialista. O livro de Mário era reminiscente da Freguesia de Santo Antônio e adjacências: ruas dos Inválidos, Henrique Valadares, Evaristo da Veiga, Passos, Lavradio, Relação ? e os Arcos da Lapa. Ruas e arcos que ainda estão lá, mas num Rio de Janeiro que, segundo Mário Lago, não é mais o mesmo: ?Atualmente, faço parte de uma minoria que nasceu aqui?, disse, numa entrevista, em 1988. ?Os cariocas da gema formam uma espécie de gueto, numa cidade que, hoje em dia, não tem quase cariocas.? Isso acontece com todas as cidades grandes e Mário Lago, embora (também) memorialista, não gostava de viver do passado. Citava Fernando Sabino, que fala da inevitabilidade da velhice: ?Fiz um pacto com o tempo; não fujo dele, nem corro atrás. Chegamos a um acordo amigável.? Mário sempre gostou de acordos amigáveis. O tema de seu livro infantil, O Monstrinho Medonhento, publicado em 1984, é esse. Os monstros estão poluindo mares, destruindo florestas, ameaçando as cidades. Um monstrinho diz: nasci monstro, mas não quero ser monstro. Para perceber, adiante, que não são os monstros que destróem as cidades, mas os homens, a quem é preciso ensinar bons modos ? com bons modos e bons exemplos. Escreveu, ao todo, 11 livros. Entre eles, Bagaço de Beira-Estrada e 16 Linhas Cravadas, este de contos, no qual impôs-se a limitação de contar histórias em exatas 16 linhas. Seus cinco filhos, com ajuda dos netos, fizeram publicar, em 1991, o livro Segredos de Família ? suas histórias, poesias, lembranças de cada um. Em 1997, Gilberto Gil escreveu uma canção em sua homenagem, O Mar e o Lago (Mário, que não tinha intimidade com Gil, escreveu outra para o compositor baiano, retribuindo o mimo). No mesmo ano, Mônica Velloso publicou Mário Lago ? Boêmia e Política, biografia do artista múltiplo, comunista para sempre, cuja maior tristeza foi a demissão, por motivos políticos, da Rádio Nacional, em 1964. Trabalhou nas rádios Panamericana, de São Paulo, depois na Bandeirantes e em seguida na Nacional, onde foi ator, narrador de novelas, roteirista, animador de auditório. Demitido, foi pedir emprego na TV Globo (já havia trabalhado em televisão, em 1954, na TV Tupi): ?Pedi dinheiro emprestado para o Roberto Marinho, porque não tinha nenhum?, conta. Conseguiu o empréstimo, tocou a vida, tornou-se uma das principais estrelas da emissora. Trabalhou nas novelas televisivas Sheik de Agadir (estreando), Cuca Legal, Pecado Capital, Selva de Pedra, O Casarão, Cavalo de Aço, Dancin? Days, O Salvador da Pátria, entre muitas; em minisséries como O Tempo e o Vento e Hilda Furacão; fez comerciais, escreveu roteiros. Neste ano, fez participação especial em O Clone. No cinema, trabalhou com Cacá Diegues (Os Herdeiros), Leon Hirschman (São Bernardo), Joaquim Pedro de Andrade (O Padre e a Moça) ? são alguns dos vários títulos que estrelou. Entre suas músicas mais conhecidas, além de Amélia e Aurora, estão Nada Além (com Custódio Mesquita), Dá-me Tuas Mãos (com Roberto Martins), É Tão Gostoso, seu Moço (com Chocolate), Enquanto Houver Saudades (com Custódio Mesquita), Fracasso (só dele), Número Um (com Benedito Lacerda), Três Sorrisos (com Chocolate) e Atire a Primeira Pedra (com Ataulfo Alves). Esteve em cartaz, desde 1933, com o espetáculo Causos e Canções de Mário Lago, dirigido por Mário Lago Filho. Até o ano passado, era possível encontrá-lo, depois da apresentação, no meio de uma roda, contando histórias, num recanto boêmio qualquer de qualquer cidade que estivesse visitando.

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