Ryan Lowry/The New York Times
Ryan Lowry/The New York Times

A banda que Bowie adorava está de volta. Mas muita coisa mudou

Brandon Curtis e Josh Garza estão retornando com 'Awake in the Brain Chamber', o primeiro álbum da Secret Machines desde 2008, que será lançado na próxima sexta-feira

Jeremy Gordon, The New York Times

18 de agosto de 2020 | 10h00

NOVA YORK - No outono de 2004, um blogueiro de música amador chamado David Bowie entrou na sua página para falar de seu entusiasmo com a estreia de uma banda emergente chamada Arcade Fire. “Absolutamente nada chega perto (e, sim, eu ouvi o novo do U2)”, escreveu ele, antes de adicionar uma advertência: “Bom, talvez Secret Machines e seu CD Now Here Is Nowhere”.

Na época, a cidade de Nova York estava repleta de bandas estranhas e descoladas, mas Secret Machines se destacava por sua fascinante combinação de rock ‘n’ roll propulsivo, texturas monótonas e arranjos sinuosos. Os três membros da banda - os irmãos Brandon (baixo, teclado, voz) e Benjamin Curtis (guitarra), além do baterista Josh Garza, que eles conheceram em Dallas - entravam num ritmo hipnótico antes de irromper abruptamente para a estratosfera, uma experiência ampliada dez vezes nos shows ao vivo.

“Senti que era uma experiência espiritual, literalmente”, disse Paul Banks, vocalista do Interpol, sobre os shows da Secret Machines numa entrevista por Zoom. “Vale muito, muito a pena experimentar algo tão visceral”.

Parece ótimo, mas ter um som fenomenal raramente é garantia do sucesso de uma banda. Suas melhores canções eram melódicas, mas não exatamente cativantes, e eles nunca fizeram as concessões estilísticas ou comportamentais necessárias para alcançarem o mainstream. Em 2007, Benjamin Curtis saiu para fundar a School of Seven Bells, sua etérea banda de synth-rock. Depois de três álbuns de estúdio, a Secret Machines entrou oficialmente num hiato em 2010.



Muita coisa mudou nos últimos dez anos. As bandas estranhas e descoladas da moda declinaram como força cultural. Bowie, que entrevistou a banda para seu site - “Conhecer o David Bowie não é uma coisa normal”, Brandon Curtis relembrou com certo espanto - morreu em 2016. E, depois de uma curta batalha contra uma forma agressiva de linfoma, Benjamin morreu no final de 2013. Ele tinha apenas 35 anos e vinha colaborando com Brandon em novas músicas.

“Até aquele momento, lá no fundo, continuava achando que voltaríamos a fazer algo com ele”, disse Garza numa outra entrevista por Zoom.

Agora Brandon Curtis e Garza estão retornando com Awake in the Brain Chamber, o primeiro álbum da Secret Machines desde 2008, que será lançado na próxima sexta-feira. A banda - agora essencialmente uma dupla, embora outros músicos tenham tocado no disco - abandonou algumas de suas tendências melódicas no álbum, gravado ao longo de quase uma década, sem perder nenhuma densidade sonora. Harmonias oníricas pairam no ar sem se resolver em estruturas convencionais; guitarras vibram e crepitam com uma energia de arrepiar os cabelos; linhas de sintetizador cristalinas perfuram o ruído que nem holofotes brilhando na névoa; os ruídos poderosos da bateria de Garza conseguiriam surrar um elefante. Eles ainda não parecem adequados para as rádios de rock, mas isto quase não importa mais numa época em que o “rock convencional” virou essencialmente um oxímoro.

Embora o álbum tenha sido concluído em 2019, até o começo da pandemia a banda não tinha planos firmes para lançá-lo. “Não tivemos que responder a perguntas sobre shows, sobre quais são nossos planos para o futuro”, disse Curtis no Zoom. “A conversa pôde ser só sobre música”.

Não era o que acontecia na primeira incursão da banda. Apesar da aclamação da crítica, os dois álbuns gravados pela Warner Bros. não pegaram, e a banda fundou seu próprio selo para o terceiro LP. Os planos para um quarto álbum, chamado The Moth, the Lizard, and the Secret Machines, foram descartados quando, durante o processo de mixagem, Brandon decidiu que as composições estavam muito deprimentes, o que refletia seus sentimentos mais amplos sobre o destino do grupo.

Naquela época, ele recebeu o convite para virar tecladista itinerante do Interpol, uma das bandas contemporâneas à Secret Machines que se transformou num grupo de rock profissional mundialmente famoso. Garza se mudou para Los Angeles para ficar com a mulher que se tornou sua esposa. “Eu estava tipo, ‘bom, não vou ficar sem minha banda e também sem minha garota’”, disse ele, dando risada.

Pouco depois, Brandon começou a trabalhar num lote de canções originais, algumas das quais acabariam em Awake in the Brain Chamber. Mas, no início de 2013, Benjamin soube que estava com linfoma.

“Seu jeito de encarar a morte, o jeito como ele viveu a vida, eu ficava simplesmente pasmo”, disse Curtis, parando de quando em quando para organizar seus pensamentos. Num certo momento, ele pediu licença para enxugar o rosto. “Ele me deu muito amor e confiança”. Depois da morte do irmão, Curtis ficou se perguntando se iria parar de compor música, mas o desejo criativo foi voltando aos poucos. “O luto não desaparece, mas você fica mais confortável, e aí se forma uma outra energia”, disse ele.



Curtis vinha tocando numa banda de psych-rock chamada Cosmicide por alguns anos, e Garza estava na cidade com sua esposa quando o grupo começou a tocar no Pianos, uma balada do Lower East Side, em 2016. Depois que a Secret Machines entrou no hiato, Garza tocou com outras bandas de Los Angeles e trabalhou em sessões de estúdio para produtores de sua órbita, mas sem encontrar um lar musical permanente.

“Na verdade, eu só queria vê-lo tocar, porque ouvi que ele tocava uma música da Secret Machines”, disse Garza. Em vez disso, ele foi convidado para subir ao palco e tocar a tal música - uma faixa de 2006 chamada Alone, Jealous, and Stoned. A experiência abriu uma conversa gradual sobre ressuscitar a Secret Machines e, no ano seguinte, Garza regravou sua bateria com o material existente de Curtis.

Foram necessários alguns ajustes para transformar essas gravações das canções do Cosmicide em canções da Secret Machines. Garza é um baterista extraordinariamente enérgico - ele descreveu seu estilo como “uma simples pancadaria” - e os instintos experimentais da banda costumavam lhe dar espaço para preencher o ar com sua forma de tocar. “Se cada um de nós tiver esse espaço, essa mágica realmente vai acontecer”, disse ele.

Algumas das mixagens originais foram concluídas quando Benjamin ainda estava contribuindo, e “uma parte da conversa com Josh quando elas começaram a virar músicas da Secret Machines era: ‘Não posso perder aquela parte que representa suas contribuições’”, disse Curtis. Além da miríade de detalhes sonoros que compõem um disco, o jeito de tocar guitarra de Benjamin se destaca em Everything Starts, uma faixa brilhante em que Brandon faz um dueto consigo mesmo sobre a incerteza gerada pela perda e a passagem do tempo: “When all you see are photographs/And everything moves so slow/Everything starts to, I don’t know” [algo como: “Quando você só vê fotografias e tudo se move bem devagar, tudo começa a... sei lá”, em tradução livre].


 


A produção do disco foi influenciada pela tristeza (e inspirada pelos dois álbuns finais de Bowie), mas a escrita de Brandon floresce da perspectiva necessária para se chegar a um acordo com perdas importantes. “Acho que ele é uma pessoa que realmente passou um bom tempo em estado meditativo - realmente se esforçou para elevar seu espírito a um alto nível de Zen”, disse Banks, o vocalista do Interpol.

Depois de trabalhar para o retorno oficial, a dupla fez uma prévia em 2018. Mas, no início de 2019, Jessie, a esposa de Garza, foi diagnosticada com câncer de mama. Como ele a acompanhava no tratamento e também cuidava da filha recém-nascida, o reencontro foi suspenso.

Ela se recuperou no final do ano, e a experiência compartilhada de Curtis e Garza aprofundou ainda mais sua amizade, que então havia evoluído para além das ferozes tribulações da juventude. “Quando você é jovem e está fazendo rock ‘n’ roll, as coisas acontecem rápido e você diz coisas que obviamente não diria a ninguém”, disse Garza. “Mas, com o tempo, você desacelera um pouco”.

De agora em diante, o caminho a seguir é otimista: eles têm planos para finalmente terminar e lançar Moth, junto com um EP original com canções que sobraram do novo álbum. Também querem fazer shows e, quem sabe?, trabalhar em mais músicas novas. Já é um milagre atravessar duas décadas de amizade e colaboração musical e chegar a este ponto sem grandes expectativas. “A vida é uma luta, sim, mas uma luta positiva e saudável”, disse Garza. “Quando nos encontramos, chegamos a um lugar diferente”.

Curtis concordou. “Eu me lembro de ter conversado com Benjamin sobre quais eram seus planos para o futuro”, disse ele, e seu irmão respondeu: “‘Só quero estar em algum lugar, ser feliz, fazer música’”.

“Isso me tocou”, disse Curtis. “Não sinto que preciso fazer nenhum tipo de divulgação. Estou lançando este álbum porque quero e porque o Josh também quer. É um lugar muito poderoso para se estar”.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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