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A aventura sonora de Macha Gharibian

Voz afinadíssima e um piano justo, com sons cuidadosamente articulados, marcam disco de estreia

João Marcos Coelho - Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2013 | 20h22

Macha Gharibian, radicada na França, ainda está na casa dos vinte e poucos anos. De origem armênia, tem sólida formação clássica em piano. É uma autêntica navegadora de vários gêneros, postura que provavelmente assimilou em 2006, quando viveu em Nova York e fez música com feras do jazz mais avançado, como Jason Moran, Ralph Alessi, Ravi Coltrane e Craig Taborn, entre outros.

Já compôs trilhas sonoras para o cinema e teatro. Mars é seu primeiro CD. Há quase sempre uma atmosfera rarefeita nesta música. Não há pressa. Cada som é trabalhado a seu tempo.

Ao todo, nove canções em 40 minutos intensos. Já na primeira delas, Macha põe música no poema Ritual Prayer, de William Parker, um dos mais radicais praticantes de uma música improvisada que alcança os níveis da produção contemporânea mais experimental e elaborada. “Não sou um bailarino / sou um ser humano / quando impulsionado pelo espírito/ danço/ Que algo de bom/ cante através de mim/ tornando o mistério mais claro”. Dois acordes básicos não empurram para a simplicidade banal, mas para um modalismo hipnótico. Chocante.

Em Noite, Macha transforma em canção o clássico poema de William Blake. Aqui, o ritmo é muito mais caliente. Além da voz, pequena e afinadíssima, Macha toca um piano justo, parcimonioso, cujas notas não se empilham gratuitamente; cada som é cuidadosamente articulado.

Das nove faixas, sete são composições suas. Duas são recriações de canções armênias tradicionais: em Kele Kele, do compositor e musicólogo armênio Komitas Vardapet, morto em Paris em 1935, aos 66 anos, ela pilota um fender rhodes. E em Parmani, abstém-se de cantar, apenas expõe a canção de Khatchadour Avedissian em uma vinheta ao piano, acompanhada apenas pelo contrabaixo de Théo Girard. Nas demais, juntam-se ao duo a guitarra de David Potaux-Razel e a bateria de Fabrice Moreau.

Byzance, Passage des Princes e a belíssima Affect Stories (dedicada ao trompetista Ralph Alessi, com quem trabalhou em Nova York) completam uma aventura sonora diferenciada, que se equilibra de modo sutil e refinado na voz e nos instrumentos, na interseção entre culturas artísticas distintas.

MARS

BEE JAZZ

US$ 7,99 (iTunes)

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