A audácia do maestro Trevor Pinnock

Regente inglês mostra o resultado da redução feita por Anthony Paine para a Segunda Sinfonia de Anton Bruckner

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2014 | 02h05

Depois de conquistar prestígio mundial dirigindo por três décadas o English Concert, grupo de música historicamente informada, entre 1972 e 2002, o cravista e regente inglês Trevor Pinnock vive, aos 67 anos, um momento particularmente gratificante em sua excepcional carreira. Atua agora como free lancer regendo também orquestras modernas convencionais como a Orquestra de Câmara da Europa. Sua base é a Royal Academy of Music em Londres, escola onde estudou e retornou há poucos anos para dirigir projetos especiais. Como um particularmente notável: reviver a Sociedade de Execuções Musicais Privadas, projeto iluminista concebido por Arnold Schoenberg em Viena.

Por três anos, entre 1918 e 1921, Schoenberg manteve uma série de concertos para apresentar as novas obras em execuções de alto nível e iluminar as grandes obras sinfônicas do passado recente por meio de reduções para grupos camerísticos. Despidas do multicolorido da aquarela de timbres sinfônicos, afloravam as entranhas e a estrutura descarnada da composição.

O primeiro CD de Pinnock com músicos da Royal Academy, em 2013, reproduziu um programa da sociedade de Schoenberg: versões de Erwin Stein para o Prelúdio na Sesta de um Fauno, de Debussy, e a Quarta Sinfonia de Mahler. Outros grupos gravaram antes estas transcrições.

O segundo CD ora lançado é uma ousadia que vale o risco, pela audácia (disponível para download em iTunes por 9,99 dólares). Pinnock agiu como Schoenberg quase um século atrás: encomendou a Anthony Paine uma redução da Segunda Sinfonia de Anton Bruckner. Paine confessa, no texto do CD, que sequer conhecia a obra. Mas, examinando a partitura, constatou que, apesar dos efeitos orquestrais massivos de Bruckner, a empreitada era possível. "A base da textura orquestral era a sonoridade das cordas; reproduzi isso com um sexteto de dois violinos, duas violas, cello e contrabaixo. Para reproduzir as impactantes sonoridades nas madeiras e metais, optei por flauta, oboé e pares de clarinetes, fagotes e trompas, um trompete e um trombone, coadjuvados por harmônio e piano".

Este efetivo dá uma liga danada. Não só é fiel ao espírito bruckneriano, como joga novas luzes em sua escrita, aproximando-o da de um Schubert, como aponta corretamente Pinnock. Os primeiros compassos do moderato inicial, por exemplo, são interpretados por um quarteto de cordas, logo interpelado pelos sopros, num jogo íntimo e descarnado - nunca, porém, resvalando na anemia, sensação em geral provocada por reduções como esta. Ganha-se em clareza rítmica, como na perfeita leitura do scherzo. Emerge uma afinidade inesperada de Bruckner com o Schubert sinfônico das primeiras décadas do século 19.

CLAREZA RÍTMICA E AFINIDADE INESPERADA DE BRUCKNER COM O SCHUBERT SINFÔNICO

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