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70 Expresso

A morte, a vida, a arte...Gilberto Gil passou sete décadas fazendo perguntas a si e aos outros. Não chegou às respostas, mas aprendeu algo importante: fazer mais perguntas

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

27 Janeiro 2012 | 21h25

O garoto que vinha naquele trem direto de Bonsucesso pra depois do ano 2000 chega introspectivo, cheio de perguntas, mais ‘da terra’ e menos tropicalista que seu outro passageiro, Caetano Veloso. Gilberto Gil, 70 anos em 26 de junho próximo, não sente falta da sauna a vapor que fazia suas ideias ferverem em outras eras. Arrisca-se a dizer que prefere o Gil de hoje. Ao contrário de Caetano e Chico Buarque, que considera artistas em pleno processo evolutivo de linguagem, ele quer a calma dos recantos, a serenidade. Seu próximo disco, diz ao C2+Música, será enfim o álbum só de sambas anunciado há mais de dez anos. Um parceiro sambista, ainda sob sigilo, será chamado para dividir o projeto com ele. E a produção deverá ficar nas mãos de Moreno Veloso, filho de Caetano, e de seu próprio filho, Bem Gil. Com sua obra toda na internet recém-reunida no site gilbertogil.com.br, o baiano de Tororó diz que não se preocupa em ter respostas para tudo. Mas tem.

Existe essa história de que o tempo dá sabedoria, serenidade, equilíbrio..

Caetano diz que quem não morre fica velho. E quem fica velho amadurece, passa a ter mais escopo, mais visão, mais clareza, quietude.

Mas isso é bom para o criador? A voracidade não lhe faz falta?

Isso cria uma rarefação da atmosfera criativa. Na juventude, a atmosfera é densa, saturada de paixão, interesse, tensão, desejo permanente de apropriação da poesia, da música. Não sei se o jovem cria melhor, mas cria mais. O tempo tira a sauna a vapor, não há mais aquele desafio.

A sauna não lhe faz falta?

Olha, para lhe ser sincero eu até gosto mais hoje, eu me preparei para a velhice. Eu venho ficando velho há muito tempo, me preparo para a velhice, me preparo para a morte, coisas que não interessam a muita gente.

Se prepara para a morte?

Entro com tranquilidade em cada novo portal da vida, sendo que a morte é o último deles. Você entra em um, em dois, três, quatro, cinco... A morte é o último e faz parte da vida.

Vejamos na hora...

(Risos) Ah, na hora é outra coisa. Digo lá na última estrofe daquela música (Não Tenho Medo da Morte), como é? (Repórter cantarola "Se Eu Quiser Falar com Deus"). Não, não é essa. Essa é sobre Deus, Não Tenho Medo da Morte é sobre mim. Não tem Deus nenhum na história (risos). "Naquele instante então, sentirei quem sabe um choque, um piripaque, um baque, um calafrio ou um toque. Coisas naturais da vida, como comer, caminhar. Morrer de morte matada, morrer de morte morrida, quem sabe eu sinta saudade, como em qualquer despedida..." Isso é lindo. Só na hora que vou ver. Quem sabe eu sinta saudade, como em qualquer despedida...

E você continua não dando a mínima para o que está lá do outro lado...

Sim, porque o que está lá do outro lado não nos diz respeito. Por isso é que digo que não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer, porque morrer é ato, me dirá respeito, estarei envolvido naquilo. "Terei que morrer vivendo, sabendo que já me vou."

A felicidade produz menos?

Sei não, os momentos de júbilo são muito generosos, eles mexem com a fantasia. Me deram muita música de festa, muita celebração.

Mas não foram nos anos de ditadura, de sofrimento coletivo e social, que formou-se uma escola de grandes metáforas? Devemos à ditadura a qualidade poética de nossas letras?

Sim, pelo menos em uma boa parte. Eu, Caetano, Chico, Edu Lobo, Vandré, Gal, Rita Lee... Vá botando nome nisso aí. A gente tinha de criar os simulacros disso e daquilo, as metáforas, a gente tinha que ficar ali fazendo o trabalho que o publicitário faz. Como é que doura essa pílula, como é que fala da revolta sem dizer o nome dela, como falar da indignação sem levantar suspeitas?

E aí você vai para o exílio, e isso é um prato cheio para um criador, não?

Quando me exilei, aquilo tudo foi-se embora também, foi comigo para o exílio. Exilou-se comigo. Eu não era como os meninos da militância política, para quem o exílio era classicamente exílio. Eu era um artista e minha militância era um episódio de minha vida de artista, não era a essência, não era meu ofício militar.

Mas ali você também ganha um carimbo a seu favor, o de 'exilado'.

Sem dúvida. Ontem mesmo meu filho disse para mim: "É gozado alguém ter orgulho de o pai ter sido preso, mas eu tenho um orgulho danado de você ter sido preso, pai". (Em 1976, Gil foi preso por porte de maconha). Ser contra a ditadura era um ato heroico, era grandioso. O exílio carimbou um passaporte para mim (risos).

Agora dá até parar rir.

Quando fomos para Londres, o fantasma da prisão era muito recente, a gente tinha medo, ninguém sabia como seria o futuro do Brasil. Eu pensava em quando poderia voltar, como voltar... Fiquei 1969, 1970, 1971. E se tudo permanecesse, sei lá por quanto tempo, e se esse tempo tomasse minha vida toda? Poder sorrir do exílio não era tão possível no exílio.

Colocar Beatles com Banda de Pífanos de Caruaru, você diz, foi a semente da Tropicália. A teoria era fantástica, mas a turma não deixou muita gente boa de fora? Excluir não foi um erro?

Nós pagamos por sermos radicais. Quem pagou o preço por fazer o que fizemos fomos nós, e um dos preços foi o exílio. Não flutuamos na superfície da facilidade, da unanimidade, da grande recepção popular. A Tropicália tinha um preço, mas também tinha um resultado, um produto. Quem não veio participar não deixou seu peso na história.

Foi de gaiato que você entrou naque-la Passeata Contra a Guitarra Elétrica (liderada por Elis Regina em 1967, com Edu Lobo e Jair Rodrigues)?

Era um prazer, eu era atraído por Elis, sonhei em ser namorado dela, me apaixonei, mas nunca disse nada. Eu participava com ela daquela coisa cívica, em defesa da brasilidade, tinha aquela mítica da guitarra como invasora, e eu não tinha isso com a guitarra, mas tinha com outras questões, da militância, era o momento em que nós todos queríamos atuar. E aquela passeata era um pouco a manifestação desse afã na Elis.

E foi a maior prova de amor que você já deu a alguém.

(Risos) Sem dúvida a maior que já dei em minha vida (risos). Caetano não quis participar porque aquilo tinha um resultado negativo, negava uma série de coisas que a ele interessava afirmar naquele momento. No meu caso, eu saí desse jogo. Não quis fazer esse jogo, se eu fosse colocar como termo da equação essas questões e tirar a Elis da equação eu não teria ido. Mas eu fiz o contrário, eliminei todos os outros termos da equação e deixei ali só a Elis. Determinei meu ato, pautei meu ato por aquela questão. A questão era ela. Eu não tinha nada contra a guitarra elétrica.

Ouviu o disco novo da Gal, produzido pelo Caetano? Não estranhou nada?

Não me estranhou nada, primeiro porque é uma iniciativa do Caetano, faz parte da linha evolutiva dele, que acontece desde o Estrangeiro, ou se quisermos, desde o Cê.

E como fica Gal?

A Gal está ali, ela sempre foi uma coadjuvante importante para Caetano, desde Domingo. Na turma baiana, esse par se fez logo, Gal e Caetano são uma parelha. Caetano não tem inibição nenhuma em colocar a Gal nesses trabalhos de coadjuvância.

Eles arriscam bem, não parecem estar na desaceleração que você diz estar aos 70 anos.

Ah sim. E na mesma direção vai o disco novo do Chico Buarque, que é de progressão de uma proposta. Chico e Caetano estão em progressão. Eu sou outra pessoa. Ao menos como proposta, não estou em evolução. Estou no caminho contrário, revisitando recantos da infância, da festa nordestina.

Seu próximo disco assim?

Vou fazer o disco de sambas finalmente, mas já falei demais sobre isso, parece que quando falamos não acontece. Bom, posso te dizer que vou chamar o Moreno Veloso e meu filho, Bem, para produzir. E que terá um sambista importante. Vamos ver.

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