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60 balés para Otranto

A trajetória da brasileira que está à frente da orquestra do New York City Ballet

Gustavo Chacra - CORRESPONDENTE NOVA YORK,

09 de setembro de 2012 | 10h04

A maestrina brasileira Clotilde Otranto regerá, pela quinta vez, a orquestra sinfônica do New York City Ballet (NYCB), a partir da próxima semana, quando começam as apresentações de outono do mais importante balé dos Estados Unidos, com sede no David Koch Theater, no Lincoln Center. Neste ano, a regente comandará a sua orquestra na apresentação de 60 balés, um número bem superior ao de outros grupos, como o próprio Kirov e o American Ballet Theater, no qual dança o brasileiro Marcelo Gomes. Na estreia, dia 18, as bailarinas mostram a Trilogia Grega, com Apollo, Orpheus e Argon.

A paulista Clotilde demorou décadas até alcançar uma das posições mais cobiçadas por maestros do mundo inteiro, em uma disputa ainda mais difícil para uma mulher vinda do Brasil. A história dela, como a de muitos regentes de todo o planeta, começou ainda na infância, em São Paulo, ao demonstrar um talento precoce no piano.

Apesar de tocar o instrumento, seu sonho "era ser bailarina", segundo disse em entrevista ao Estado no seu prédio, a um quarteirão do NYCB e das vizinhas Ópera e Filarmônica de Nova York, que compõem o complexo do Lincoln Center. "Mas uma espécie de artrose na perna acabou com o meu sonho aos 17 anos", acrescentou a regente, que era do corpo de baile do Teatro Municipal de São Paulo.

Longe da dança, decidiu se dedicar apenas ao piano. Ao mesmo tempo, estudava direito na PUC. Foi quando decidiu participar do concurso da Rádio Eldorado/Jornal O Estado de S. Paulo de piano, um dos mais importantes da música brasileira nos anos 1960 e 1970, que ocorria de quatro em quatro anos. Na época, ela ainda era solteira e usava o nome Clotilde Mafalda Pereira Carneiro e foi a vencedora em 1969, aos 21 anos.

Vitoriosa, Otranto decidiu seguir a carreira musical, deixando de lado o direito. "Mas, por gostar de linguagem corporal, comecei a pensar na regência. O problema era conseguir treinar em São Paulo. Precisava de tempo de pódio. Uma das saídas foi praticar com a orquestra do Esporte Clube Pinheiros", disse. O ideal, porém, era vir para os Estados Unidos estudar para ser maestrina.

Casada, veio fazer pós-graduação com bolsa em Michigan, passando pelo Arizona e terminando o doutorado em regência na Universidade Yale, uma das mais conceituadas dos EUA. "Uma educação formal ainda é a melhor forma para uma carreira de regente", afirmou.

Segundo Otranto, embora profissionalmente seja complicado, na universidade muitas portas se abriram por ela ser mulher. Um de seus professores, porém, a alertou: "Como regente mulher, você não terá uma segunda chance. Você precisa se preparar dobrado".

Seu primeiro emprego foi o de regente associada na Orquestra Sinfônica de Phoenix. Em seguida, partiu para Naples, na costa da Flórida, antes de assumir o posto de maestrina do Miami City Ballet, entre 2000 e 2006. Aos poucos, começou a ser convidada para conduzir o NYCB. Na sua primeira noite na regência, ela lembra de ter-se sentido como "uma cinderela".

De acordo com Otranto, que, ao longo da carreira, já trabalhou com maestros como Leonard Bernstein, Gustav Méier e Gunther Herbig, diferentemente de uma Orquestra Sinfônica normal, no balé o regente não é o ‘chefão’. "Além dos músicos, precisamos agradar ao balé master, às bailarinas, ao coreógrafo." É quase uma carreira distinta e a brasileira diz que pelo fato de ter sido bailarina facilitou o seu trabalho. Segunda ela, "a relação é muito saudável, de respeito, entre os bailarinos e os músicos".

A rotina, durante a temporada, é brutal. Primeiro, há o ensaio com os músicos das 10 h às 13 h. Depois de alguns minutos para almoçar, ela ensaia mais uma vez, com os bailarinos, até as 19 h. Meia hora mais tarde, após se arrumar, já está no pódio para apresentação para a plateia.

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