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50 longos anos

Há meio século na estrada, Eric Clapton lança álbum cheio de regravações e anuncia: turnês, só até 2015

Gabriel Vituri, Especial para o Estado,

16 de março de 2013 | 07h00

Quase três anos se passaram desde que Eric Clapton lançou seu último álbum. Nesta semana, o ‘slowhand’ voltou. Desde que assumiu que seguiria em carreira solo, em 1970, Clapton nunca esperou mais de cinco anos para jogar um trabalho seu no circuito.

Divulgado oficialmente no último dia 12, o novo álbum solo do guitarrista chegou aos ouvidos de seu público sem muito alarde (a foto da capa, um pouco displicente, gerou alguns comentários maldosos na internet sobre o seu gosto duvidoso, vale ressaltar). Em Old Sock, Clapton procurou selecionar faixas que significassem algo para ele mesmo. Escolhido a dedo, o repertório desfila músicas que o influenciaram por toda a vida, passando por gêneros dos quais ele, em algum momento, já usufruiu - do reggae ao soul, do rock ao blues.

Além das duas inéditas (Every Little Thing e Gotta Get Over), Clapton mistura em Old Sock obras de Gary Moore, Taj Mahal, Gershwin, Otis Redding e Peter Tosh. Para os mais fanáticos, haverá também uma edição de luxo, limitada em mil cópias, com uma faixa extra (No Sympathy) e outros mimos para colecionadores - um livreto com fotos, letras e um cartão USB com os arquivos das gravações em alta qualidade. O tom de ‘encontro entre amigos’, personalista, fica ainda mais evidente quando se lista os convidados especiais para a gravação: JJ Cale, parceiro no disco The Road to Escondido e quem um dia lhe rendeu seu hit Cocaine; Steven Winwood, organista e colega na sessentista Blind Faith; e Paul McCartney, fazendo o baixo bem marcado e a segunda voz no standard All of Me.

Acima de tudo isso, o disco coincide com outro marco da carreira do guitar-hero: os seus 50 anos de estrada, que serão comemorados a partir de hoje com o início de uma turnê mundial. Haverá shows por várias cidades nos Estados Unidos, incluindo aí o Crossroads Guitar Festival, em Nova York, do qual também devem participar BB King e Buddy Guy, por exemplo. Depois disso, segue para a Europa e toca na Alemanha, Polônia, Irlanda e Áustria, entre outros. Faz ainda uma série de apresentações no Royal Albert Hall, em Londres, onde apareceu pela primeira vez na década de 1960, com os Yardbirds. Dessa vez, porém, ele desabafa: turnês mundiais já não fazem mais parte de seus planos.

Apesar de não ser um homem de entrevistas, Eric Clapton abriu o jogo para a edição norte-americana da revista Rolling Stone e revelou estar exausto. O cansaço, ele explica, tem mais a ver com as burocracias envolvidas em uma grande turnê. As longas viagens, os trâmites de imigração e as incontáveis revistas nos aeroportos são queixas comuns de artistas que acumulam décadas de carreira e, somadas aos 67 anos de idade do ‘slowhand’, não chegam a surpreender.

Seria leviano dizer que o ato de jogar a toalha a essa altura do campeonato o tornaria menos deus. Ao longo dos anos, Clapton comeu o pão que o diabo amassou e sofreu vários baques na carreira. Em 1971, o guitarrista Duane Allman, que junto com ele e com o Derek and The Dominos gravou o disco Layla and Other Assorted Love Songs, morreu em um acidente. Dois anos depois, afundado nas drogas, Clapton ganhou uma força de Pete Townshend, do Who, que promoveu um show, o Rainbow Concert, como forma de estimular o bluesman a se livrar do vício da heroína. Na década de 1990, amargou a morte do guitarrista texano Stevie Ray Vaughan, seu companheiro de turnê, em um trágico acidente de helicóptero. E nem um ano depois sofreu talvez a maior de suas perdas: seu filho, de apenas quatro anos, morreu ao cair da janela do apartamento. Eric Clapton, no entanto, seguiu em frente: em 1994, lançou o histórico e venenoso From the Cradle, com releituras de clássicos de Willie Dixon, Lowell Fulson e outros blues.

Old Sock é o vigésimo primeiro álbum solo de uma carreira que deve muito à década de 1960. Influenciado pelo blues eletrificado de Chicago, Clapton teve destaque com os Yardbirds no início da estrada. Em 1965, ficou com John Mayall e a BluesBreakers durante um curto tempo, mas o suficiente para participar de um dos mais emblemáticos álbuns do blues britânico. Dali em diante, formou com Jack Bruce e Ginger Baker o Cream, trio que desconstruiu o rock n’ roll em várias frentes e lançou quatro álbuns aclamados até hoje. Ao lado de ninguém menos que John Lennon, Keith Richards e Mitch Mitchell, Clapton também fez a sua parte com o Dirty Mac, em uma histórica apresentação no picadeiro dos Rolling Stones, o Rock and Roll Circus. O currículo do guitarrista, em outras palavras, é um sem fim de álbuns, bandas e parcerias, que podem ir desde o ex-beatle George Harrison - e sua mulher Pattie Boyd, que Clapton conquistaria, em traição ao amigo - a novas e velhas figuras do blues, como Gary Clark Jr. ou BB King.

Em 2001, em uma das vezes em que veio ao Brasil, o anúncio parecia irreversível: Eric Clapton faria a sua última turnê mundial, com ênfase na palavra derradeira. Dez anos depois, porém, a boa nova chegou e o britânico voltou a pisar por aqui. Na época, a "surpresa" de seu retorno foi bem recebida (assim como aconteceu com BB King por duas ou três vezes) e provou novamente que sua carreira continuava um sucesso. Perto de seu aniversário de 68 anos - no próximo dia 30 -, o guitarrista disse, em entrevista à Rolling Stone que abandonará as turnês quando completar 70. Até lá, quem sabe ele não muda de ideia.

Crítica, por Julio Maria

Um Clapton que surge dentre os três Claptons do passado

Clapton? Qual Clapton? São pelo menos três homens que convivem ali dentro de um corpo de 1,77 metro de altura, 67 anos, dedos longos e que poucas vezes se permite sorrir. Qual Clapton aparece agora? O que fecha os olhos e tira lamentos de uma alma angustiada, suplicando pela ajuda de seu blues como se fosse ele a última salvação? O aluno sereno e equilibrado que estuda cada nota antes de reverenciar um mestre? Ou o criador de canções que já lhe renderam seis Grammys de um único disco, em 1992?

O Clapton de agora deve estar em algum lugar dentre os Claptons que ele mesmo recruta entre um álbum e outro. Está mais longe do bluesman de From The Cradle, de 1994, e mais perto do homem que há dois anos lançou um álbum de memórias afetivas com canções que ouvia quando criança. Mais longe dos ímpetos da adolescência que o faziam viajar ao espaço ao lado de Jack Bruce e de John Mayall e mais perto da leveza que destilou seus solos no açúcar em discos dos anos 70, como Another Ticket e Slowhand. Clapton está mais longe do guitarrista e mais perto do artista. O protagonismo de seu disco não está no instrumento, mas nas canções. Ser tantos o faz incompreendido por quem se depara com um quando o que vem é o outro.

O Clapton de Old Sock é o homem que aparece na capa do disco. Seguramente a pior capa de um disco seu, talvez a pior capa de um disco em muitos anos, ela ao menos revela seu espírito. É como se quisesse fazer canções para ouvir nas férias. Só não esqueçamos, são as férias de Clapton, algo que não deve ser pouco. Further On Down The Road, de Taj Mahal, é um reggae com o DNA de I Shot the Sheriff, mas sem tensão. Algo que vai acontecer de novo até o disco acabar. Sua Gotta Get Over dá sinais do especialista em erguer edifícios sobre riffs - algo que fez muitas vezes, como em Badge ou Layla. Mas suas pretensões aqui são menores, e ele não passa do quinto andar.

Agora, Clapton só gravou o que lhe faz bem. Seu disco não fecha um conceito, não amarra uma proposta. É como se tivesse esperado as filhas e a mulher dormirem para tocar na sala, apenas para si. Uma despreocupação que faz tudo ser leve e cria canções para ficarem por um dia todo em quem as ouve. Till Your Well Runs Dry, de Peter Tosh, é linda e triste. All Of Me, o standard, fica sorridente com a segunda voz e o baixo de Paul McCartney. Born To Lose é o country das slide guitars e da melancolia de Alberta, que ele consagrou no Acústico. Quase despercebido, JJ Cale faz vocal na balada Angel, algo que estaria em qualquer disco de Clapton dos anos 70. E Steve Winwood coloca teclados no terreno mais arenoso em que todos ali decidiram pisar. Still Got the Blues jamais ficaria melhor do que a original de Gary Moore, o espantoso guitarrista irlandês morto em 2011. A canção aparece limpa, de guitarras calmas e um órgão de igreja fazendo o tema do solo. Clapton está de férias. E, nas férias, ele prefere assim.

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