Hervé Bourhis/Divulgação
Hervé Bourhis/Divulgação

‘45 Rotações de Rock’, de Hervé Bourhis, traz história ilustrada de singles do rock

Livro do quadrinista francês conta histórias divertidas do gênero que balançou a cultura ocidental, do be-pop ao woo-hoo; ouça playlist

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 03h02

Com braços e pernas enfaixados, em uma cama de hospital, Eugene Craddock - eternizado para sempre como Gene Vicent -, para competir com o recente estouro chamado Elvis Presley, compôs Be-Bop-A-Lula, em 1956. Duas páginas depois, Richard Hell - após ter fundado e abandonado uma das bandas mais influentes da história, o Television - se junta com os Voidoids e grava “um marco do punk rimbaudiano nova-iorquino”: Blank Generation

Um pouco mais à frente, em 2005, um grupo de nerds “superdotados cheios de espinhas” se reúne em estúdio para lançar, por um selo próprio, o single que tem Fake Tales of San Francisco. Quase dez anos depois, o Arctic Monkeys é uma das bandas de rock mais populares do mundo.

Essas são apenas algumas histórias que o quadrinista francês Hervé Bourhis conta - e desenha - no recente 45 Rotações de Rock (Conrad), que fica no meio do caminho entre história do rock, memória afetiva e graphic novel, tudo isso com a dose certa de desprendimento e elegância.

Bourhis selecionou 45 singles lançados de 1951 a 2005 (a edição original do livro é de 2012): além das ilustrações das capas (como as que compõem esta página), ele conta histórias de gravação, bastidores, contexto da época, personagens e artistas malucos de canções que mudaram a trajetória do rock e, por que não, da cultura ocidental.

Há um bônus - a 46.ª música - que ele escolheu, com a sanção do Hall da Fama do Rock, como a origem de tudo: Rocket 88, de Jackie Breston & His Delta Cats. No livro, Bourhis lembra de uma reunião do Hall da Fama em 1991, que deve ter durado vários dias, entre doses de Jack Daniel’s e xingamentos, em que os membros discutiam a origem da coisa toda. “Foi quando um cara magrinho levantou a mão do outro lado da mesa. “E o Rocket 88?” Com Ike Turner na guitarra. É um boogie nervoso. (...) No pior dos casos, se não é a primeira música de rock, é indubitavelmente o primeiro rock’n’roll sobre carros”, escreve o francês, não sem antes ressaltar que o autor da música é um “velho cafetão nojento” (ele teve um passado horroroso de violência conjugal com sua parceira Tina). 

“Escolhi músicas que têm uma história. O formato também é importante: 45 rotações, EP, minicassetes, singles em CD, MP3. Hoje, com o streaming da internet, o conceito de single praticamente não existe mais. Antes, era o formato que imperava. Nos anos 50 e 60 os jovens não compravam LPs, mas o single que ouviam no rádio, era mais barato”, diz o autor, em uma simpática troca de e-mails com o Estado.

A ordem alfabética da seleção permite um passeio descompromissado por diferentes épocas e estilos do rock, e o autor ainda teve a boa sacada de relacionar músicas menos conhecidas com os megassucessos.

Há os óbvios: Like a Rolling Stone, conta Bourhis, foi primeiro um manuscrito imenso de 20 páginas, passou pelas mãos do grande Paul Bloomfield e ajudou Bob Dylan - “já uma lenda” - a transformar o rock em algo mais inteligente. A gravação do único clipe do Joy Division - Love Will Tear Us Apart -, com Ian Curtis e sua guitarra Vox Phantom branca, inaugura os anos 1980 no livro. The Who também aparece com My Generation, de 1965, e a tirada óbvia: “‘Espero morrer antes de ficar velho’, cantavam Daltrey e Townshend, que em 2013 ainda interpretam essa música...”. Elvis, Rolling Stones, Pink Floyd, Creedence, Neil Young e outros monstros também estão lá.

O livro vai além - explora as origens do rock e o rockabilly. Mystery Train, em que um jovem Elvis está “prestes a abalar o mundo ocidental”, Tutti Frutti, cuja letra original de Little Richard dizia “tutti frutti, good booty (bundão)”, Great Balls of Fire, antecipando a mania de Jerry Lee Lewis botar fogo no piano, e até Fujiyama Mama, o fantástico single de Wanda Jackson, a Rainha do Rockabilly, de 1957. 

Um parêntese: Wanda Jackson continua na ativa - em 2011, gravou The Party Ain’t Over, álbum de versões com a participação de Jack White. Que também está no 45 Rotações com Seven Nation Army, música do White Stripes que é daquelas que viraram hino e quase se descolam da imagem de seus criadores, ganhando vida própria nem sempre das mais respeitáveis.

O White Stripes compõe com o Libertines, o já citado Arctic Monkeys, o Blur e o Radiohead o grupo contemporâneo. Sucessos dos anos 1980 e 90, como os punks, os Stone Roses e os Beastie Boys completam a seleção. A grande ausência é o metal, que faria parte de outro projeto de Bourhis que não decolou.

O que destoa de tudo isso tem um nome e é tropical: Os Mutantes aparecem no livro com Panis Et Circenses - e o autor não hesita em cravar: “...um objeto musical não identificado, excitante, lisérgico e inovador, em algum lugar entre Zappa e The Mamas & The Papas. Os Beatles brasileiros? É um pouco mais do que isso, moço”.

A relação de Bourhis com a música brasileira, explica, começou por causa do Pixies e o seu Bossanova, álbum de 1990. Depois, Kurt Cobain - instruído por um RP - teceu suas loas públicas a Arnaldo Baptista na visita do Nirvana ao Brasil, em 1993.

“Acho que o rock, como fenômeno artístico, social e, digamos, revolucionário, morreu em torno de 1980, com o Joy Division”, opina Bourhis, autor de 25 livros ilustrados de ficção, história e música. “Depois houve revivals, alguns grandes sobressaltos da boa música (Nirvana, Radiohead, White Stripes ou, hoje, Tame Impala ou o Parquet Courts). Mas não é mais um movimento transcendental. O rock, como o jazz, tornou-se uma música patrimonial que recicla o passado, mas, às vezes, é empolgante” - as 46 páginas ilustradas desse divertido e empolgante livro de sua lavra não o deixam mentir sozinho.

BOTE PRA OUVIR

Além dos singles, Bourhis cita no livros canções relacionadas aos grandes sucessos. Selecionamos sete delas que – também – valem a pena botar na vitrola (ou procurar no Spotify):

‘Little Johnny Jewel’, do Televison (1975)

‘Los Angeles’, de Frank Black (1993)

‘Alex Chilton’, do The Replacements (1987)

‘Volunteers’, do Jefferson Airplane (1969)

‘Slow Hands’, do Interpol (2004)

‘Blister In The Sun’, do Violent Femmes (1983)

‘Cut Your Hair’, do Pavement (1994)

45 ROTAÇÕES DE ROCK

Autor: Hervé Bourhis

Tradutor: Diego de Kerchove

Editora: Conrad (48 págs., R$ 37,90)

Ouça uma playlist com 24 clássicos elencados por Bourhis no livro:

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