45 anos depois, ‘Clube da Esquina’ é referência para nova geração da música brasileira

45 anos depois, ‘Clube da Esquina’ é referência para nova geração da música brasileira

Lançado em 1972, álbum de Milton Nascimento e Lô Borges ganhou status de clássico

Bruno Vieira, Especial para O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2017 | 16h34

Depois da escola, Lilian ouve rádio deitada na cama de seus pais e grava “Trem Azul” em uma fita K7. Lucas e Zé se reúnem com seus parceiros de banda para escutar vinis antigos. No Rio de Janeiro, Castello escuta o “Clube” com um amigo mineiro, que conta como se sentia em casa quando ouvia o disco nas suas noites em claro.

Em todas essas histórias há um elemento comum: era a primeira vez que esses jovens músicos escutavam o “Clube da Esquina”. O álbum de Milton Nascimento e Lô Borges, que completa 45 anos em 2017, virou referência para eles. 

Lilian Soares, é vocalista da Tuyo, trio curitibano que fala das agruras da vida em canções acústicas. Ela conta que juntou os pedaços do “Clube” gravando músicas avulsas em um programa da rádio universitária de Londrina — sua cidade natal.

Foi cantando Milton, sozinha, olhando o céu pela janela lateral de seu quarto, que Lilian se entendeu como intérprete. Ali que “casou com a canção”, como ela mesma define. “Tudo fazia sentido”, diz. Essa influência em seu jeito de cantar está espalhada pelas músicas da Tuyo em forma de falsetes melancólicos, como na faixa “Sin Premura”.

Mas a influência vai além da música. Segundo ela, o Lô Borges e o Milton Nascimento construíram boa parte da complexidade emocional que transborda em suas canções. Toda vez que escuta o disco novamente, os sentimentos vem à galope. “Eu sinto uma saudade não sei do que, sinto um prazer intenso na melancolia e que tudo está onde deve estar”, diz.

Essa saudade sem explicação também afeta Lucas Nunes, guitarrista da banda Dônica — grupo carioca que conta com Tom Veloso e outros moleques perto de seus 20 anos, na formação. Toda vez que escuta o álbum lembra de seus amigos, sua família e o início da banda. “É forte pra mim, me emociono, não tem como explicar exatamente”, afirma.

+ Milton Nascimento fala sobre os 50 anos de 'Travessia' e os 45 de 'Clube da Esquina'

Para Zé Ibarra, vocalista da Dônica, o “Clube” apresentou a ele e seus companheiros de banda uma liberdade para fazer música sem igual. Era possível compor e criar sem precisar explicar muita coisa nem contar com a aprovação de terceiros. 

“Bicho Burro” e “Pintor” (que conta com participação de Milton) são duas faixas em que as influências aparecem com mais força na música da Dônica. O flerte com o rock progressivo da banda é um dos pontos de aproximação entre eles e as canções de Lô Borges — o timbre de Zé também carrega traços do mineiro.

Zé ainda destaca a importância desse disco para a música de uma maneira geral. “Não tem como ouvir o Clube e sair ileso”, diz. “Sempre saíremos um pouco avariados, no melhor sentido, claro, e acho que a música brasileira também saiu.”

O também carioca, Castello Branco, 30, concorda com o gigantismo dessa obra e comenta que ela colocou Minas Gerais em um lugar importante no cenário musical nacional. “Mas isso tudo é só um detalhe comparado ao quanto ele modificou a vida de muita gente”, diz.

O disco integrou a música que ele faz de uma maneira sutil, natural. “Tudo que a gente ama acaba fazendo parte da nossa formação”, declara. Econômico nas palavras, ele, assim como aquele seu amigo mineiro, define a sensação que toma conta quando escuta o álbum: “Me sinto em casa.” 

Dos 20 aos 65. Há 45 anos Lô Borges está na estrada. E há 45 anos, músicos de todo o Brasil o procuram para dizer como o “Clube” os influenciou. “Eu acho que é um carinho, uma coisa maravilhosa as pessoas falarem que gostam e foram influenciadas por esse disco”, diz o músico mineiro. Porém, ele destaca que muitas vezes não consegue perceber a presença do seu trabalho no som de terceiros. 

Segundo Lô, essa relação segue a mesma lógica da que ele tem com os Beatles. Apesar deles serem uma influência direta, ele mesmo não consegue notar as semelhanças entre os garotos de Liverpool e o garoto de Belo Horizonte. “É uma relação mais afetiva”, diz.

Para ele, a sinceridade é o que torna o “Clube da Esquina” um trabalho especial. Nenhum dos envolvidos no projeto tinha intenção de fazer algo que duraria décadas. “A gente fazia música para nós mesmos, para a gente gostar e ficar feliz”, conta. “É um disco que foi feito com muita verdade, muita inspiração”.

De todas as memórias que guarda daquela época, a que ele diz ser a mais forte é o espírito de cooperação e o carinho entre os músicos do Clube. “A gente se comportava como um bando de amigos, todo mundo entrava de cabeça”, diz.

+ Lô Borges toca pela primeira vez o 'Disco do Tênis', de 1972

Há algumas semanas, a Dônica abriu os shows da turnê do “Disco do Tênis” de Lô — também lançado em 1972. O mineiro fala com empolgação sobre a experiência de, aos 65 anos, dividir o palco com pessoas que tem a mesma idade que tinha quando fez o “Clube da Esquina”.

“Quando eu divido o palco com essas gerações mais novas, eu sinto uma renovação da energia da minha música, é como se eu estivesse revivendo meus 20 anos também”, comenta. “A música é uma coisa que liga as gerações e as estéticas, ela tá aí para unir as pessoas e não para separá-las”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.