40 lições de como querer caetanear

Se Gilberto Gil quase não aceitou o Ministério da Cultura por falta de dinheiro, Caetano Veloso não poderia aceitar por falta de tempo. Embora nem tenha sido cogitado - até pelo fato de durante boa parte da campanha ter se mostrado indeciso entre Lula, Serra e Ciro - só em 2002, o mais mouro do baianos lançou um CD - ao lado de Jorge Mautner -, fez shows para divulgar o disco, se apresentou nos Estados Unidos, deu uma palestra em Nova York sobre o livro Verdade Tropical, se reencontrou com os Doces Bárbaros e fez uma ponta, cantando Cucurrucucu Paloma, no filme mais recente de Pedro Almodóvar. Não sobrou tempo nem para falar sobre o lançamento da caixa Todo Caetano, coletânea completa com todos os seus trabalhos lançados pela Universal (ex-Polygram), sua única gravadora em quase quatro décadas de carreira. "Desses 40 discos, 13 foram remixados e 17 foram remasterizados. Dois nunca estiveram no mercado brasileiro. Um é de singles dele que saiu apenas no Japão - com faixas retiradas de compactos (os de vinil) que ele havia gravado nos anos 70 - e outro é um que ele gravou com a Banda Black Rio, que fazia parte do arquivo da Warner", explica Charles Gavin, o responsável pelo projeto. Completa o pacote um libreto de 62 páginas, tantas Canções, com fotos e comentários de Caetano, entrevistado por Gavin e pelo jornalista Luís Pimentel. Trabalho cuidadoso e quase artesanal, Todo Caetano reproduz em papel as capas originais, adaptadas ao tamanho do CD e mantendo os encartes, os detalhes dos originais e até as capinhas de plástico envolvendo os CDs. Exemplo é a capa de Transa feita pelo diretor de teatro Álvaro Guimarães, que a batizou de discobjeto, em que as dobraduras se transformam num pentaedro. Além disso, os CDs copiam o selo dos elepês (a parte central dos discos de vinil, onde vinham nome do autor e o título das músicas). Está tudo lá. Do primeiro LP, de 1967, dividido com Gal Costa, até o CD mais recente, deste ano, feito em parceria com Jorge Mautner. Por ser ampla, a caixa abrange todas as fases de Caetano e mostra as mudanças estilísticas e comportamentais de alguém que disse, no final dos anos 70, "que sempre quis muito, mesmo que parecesse ser modesto", entrou na década seguinte declarando que "já tem coragem de saber que é imortal", para logo depois se subestimar autoclassificando-se como "apenas um velho baiano, um fulano, um caetano, um mano qualquer". No começo da década passada, Caetano avisava que alguma coisa estava fora da ordem. Se preocupava também com a violência urbana, com o fétido seqüestro, com o crime estúpido e, muito antes de qualquer campanha de conscientização no trânsito, já dizia que legal é não ultrapassar o sinal vermelho. Logo depois, enveredou pelas melodias da América hispânica, no já antológico Fina Estampa, teve mais um filho, Tom - nascido no mesmo dia do aniversário do autor de Corcovado e Desafinado e que em sua homenagem foi batizado - e quando se aproximava do final do milênio, Caetano olhava para trás e dizia que "o que eu herdei de minha gente nunca posso perder" e continuava preocupado com a imortalidade ao prever que "eu vou viver dez, eu vou viver cem". Para quem havia dito - quando se aproximava dos 50 anos - que "o mero ato de compor uma canção era tão desesperadamente necessário", o quase sempre verborrágico Caetano Veloso chegou aos 60 anos trabalhando bastante e mantendo o silêncio. Aquele mesmo silêncio que ele definiu em Livro como "quase tão bom quanto João Gilberto", que está numa faixa do mesmo CD e que, de certa forma, resume toda a caixa - "Por ser feliz, por sofrer, por esperar, eu canto". Serviço - Todo Caetano. Caixa com 40 CDs de Caetano Veloso. Lançamento da gravadora Universal. Preço entre R$ 900 e R$ 1.000.

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