3º Prêmio Visa de MPB chega à etapa semifinal

Começou ontem a etapa semifinal do 3.º Prêmio Visa de MPB - Edição Compositores. É o primeiro festival da canção popular que premia obras, não composições específicas. Os 24 participantes, escolhidos na pré-seleção, inscreveram-se com quatro músicas, que foram apresentadas durante a etapa eliminatória. Os 12 que chegaram às semifinais têm de apresentar, no mínimo, mais duas inéditas. Os cinco que forem à grande final terão de mostrar pelo menos mais uma música nova.Alguns dos candidatos preferiram levar a proposta ao nível mais radical. Foi o caso do mineiro Flávio Henrique, que abriu a noite de segunda-feira. Quando se apresentou na etapa eliminatória, Flávio escolheu músicas que homenageavam personalidades mineiras: o poeta Drummond, o escultor barroco Aleijadinho; na segunda-feira, embora ainda falando de Minas e de suas personalidades, passeou pelos ritmos brasileiros.Apresentou um choro, feito em parceria com Paulo César Pinheiro, um baião, composto com Dado Prates, que aproxima as Gerais dos sertões vizinhos ("Remelexo, rebolado/ Balancê, maracatu, forró ´do bão´/ Xote do sertão/ Festa de congado e São João", da música O Que É o Baião). Flávio contou com a delicada participação do Grupo Amaranto, um trio vocal formado pelas irmãs Flávia, Marina e Lúcia Ferraz, completando a interpretação da solista Marina Machado, uma sua habitual parceira de discos e espetáculos. As meninas Ferraz evocam o Quarteto em Cy e a tradição dos grupos vocais brasileiros dos anos 50 e 60 - e elas não podem ter muito mais de 20 anos. É sempre bom ressaltar a importância dos festivais da canção, que permitem a um público menos regionalizado conhecer a inteligência criativa que não está na televisão, com certeza, está pouco no rádio e eventualmente nem chegou ao disco. A música de Flávio Henrique, bela e sensível, além de tudo, prova que certas tradições, como aquela elaborada construção vocal do Grupo Amaranto, apesar de tudo, não foram perdidas.A noite continuou com a dupla de parceiros formada por Felipe Radicetti e Marcelo Biar, pianista o primeiro, percussionista o outro. Contaram eles com a extraordinária interpretação da cantora Clarisse, uma voz que já brilha há muito tempo, em círculos restritos - a noite do Rio a conhece bem -, mas que deveria tornar-se nacional, universal. Mas a voz de Clarisse, como a graciosidade das meninas do Grupo Amaranto, era apenas mais um elemento na construção da obra.A canção popular faz-se de muitos elementos: a música não é, necessariamente, boa sem a poesia que, por seu turno, talvez valha pouco sem a melodia e a interpretação do composto é às vezes, tão importante quanto o próprio composto. Em outras palavras: se o compositor dispõe de determinada intérprete, com determinadas características, ele passa a compor ouvindo sua voz. No tango Senhora das Sombras, salvo engano grave, prevaleceu esse raciocínio.É uma daquelas canções sombrias em que a música brasileira se avizinha da portenha; elas comungam, então, da passionalidade que se diz "latina" - é música que tem cara, corpo, presença física.Pianista - O terceiro candidato da noite foi o pianista Lincoln Antônio, paulista de Santos, integrante do grupo A Barca, que acabou de lançar o primeiro disco. Lincoln preferiu que cada música fosse de um intérprete: convidou Sandra Ximenes, Juçara Marçal, Nenê Cintra e Ney Mesquita, cada um para uma das quatro músicas. É uma proposta interessante, que de certa forma ratifica o raciocínio desenvolvido anteriormente: se Felipe Radicetti e Marcelo Biar encontram na voz de Clarisse a perfeita tradução, Lincoln mostra que a tradução pode encontrar visões diferentes. Por isso, aliás, chama-se tradução.Encerrando a noite, apresentou-se o paulista Rafael Altério, este, só paixão, que está explícita na música, na poesia (quase sempre em parceria com a mulher, Rita Altério), no vozeirão de tenor de opereta, nos olhos, nas mãos, quando se movem, enquanto canta. O Prêmio Visa está oferecendo a chance de se ver e ouvir esses brilhantes criativos que precisam chegar ao grande público, pela saúde do público, pela beleza, pela arte.

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