2 Many DJ´s dão as cartas nas pistas

O efeito da música na pista dedança era devastador, diversão ininterrupta num ginásio deesportes hipnotizado do festival Trans Musicales, em Rennes, naBretanha francesa. Isso foi na semana passada. É como se o somviesse com um aviso na rabeira: hora de aposentar Fatboy Slimporque aqui estão os irmãos Stephen e David Dewaele, os garotosexplosivos do 2 Many DJ´s (DJs demais, em inglês; ou então: DoisDJs Demais da Conta).No disco, do selo belga Pias Recording, com sacos depapel de padaria na cabeça, eles evitam uma publicidadedemasiado personalizada - até porque as companhias de discosadorariam vê-los num tribunal. Não escapa um único hit pop dametralhadora de remixes do 2 Many DJ´s, a mais nova sensação damúsica eletrônica na Europa.Mas na pista eles não fazem forfait. Vêm de cara limpa,com camisetinhas ploc e cara de menino recém-desmamado, comodois Becks europeus. Eles sim são os novos e verdadeiros irmãosquímicos da música eletrônica, os reis do dancefloor. Fizeram umdisco de 45 faixas em um computador Mac G3, compilando tudo oque você pode ouvir no seu rádio atualmente, mesmo a música maiscomercial, mas dando a isso tudo uma marca inconfundível, umalevada da breca.De Nirvana a Emerson, Lake & Palmer, Polyester a Sly andFamily Stone. Eles conseguem achar uma vibe comum entre NoFun, punk rock dos Stooges, e a diabética Joe Le Taxi, comHanayo e Jürgen Paape (aquela mesma que a Angélica da TVcantava como Vou de Táxi). Pop bastardo, irreverente, cinzasda indústria requentadas com brasas do rock primal."Estou de saco cheio, por favor, não telefonem mais. Eunão posso ver a mim mesmo ralando tanto para uma coisinhadessas", eles ouviram de um porta-voz de uma das 45 companhiasde discos que procuraram para licenciar algumas faixas quesamplearam. Então, aquilo que não conseguiram legalizar, elesmandam ver sem remorso na pista de dança, o que os torna espéciede fora-da-lei das baladas eletrônicas."Se você me perguntar, direi que há um certo climaGrandmaster Flash no disco inteiro. Porque o que o grande Masterfez não foi nada mais do que pegar todos os seus trechosfavoritos de seus discos favoritos e os pôs juntos para criaralgo novo e especial. A mesma coisa está acontecendo aqui. Adiferença é que Flash fez isso com uma equipe ao seu lado e nós- Steve e David - fizemos isso em um Mac G3", escrevem os 2Many, no seu site na internet.A dupla centra fogo num encadeamento ininterrupto demúsicas muito conhecidas, geralmente hits dos anos 80, deVanessa Paradis aos Beastie Boys. Para chegar ao resultado,tiveram de atravessar o que chamam de "a selva" da indústriado disco. "Nestes tempos pós-modernos dos ilegais MP3 ebootlegs oficiais, seria fácil pensar que você pode ir adiantecom qualquer coisa. Não pode", escrevem os rapazes. "Nunca seesqueça de que todo mundo quer um pedaço do bolo. Se você quiserincluir a música de alguém em sua própria você tem de pedirpermissão ao dono das master tapes, os quais geralmente são ascompanhias de discos do artista. E, dependendo do contrato doartista com a companhia, eles têm também de pedir a permissão doprimeiro. Esse processo é conhecido como ´licensing´, ou, empapo de gravadora, ´liberar´ os direitos."Bom, nada disso pareceria realmente relevante porquetodo mundo conhece os procedimentos. Mas, para um grupo cujaidéia é realmente fazer um rastreamento de toda a batida damúsica contemporânea, é uma tarefa hercúlea. O 2 Many DJ´s levoutrês anos fazendo o álbum de estréia, mandou 865 e-mails paragravadoras, além de 160 faxes e centenas de telefonemas paracontactar as 45 gravadoras.Escolheram 187 faixas, das quais 114 tiveram autilização aprovada, 62 foram recusadas e 11 não foram gravadas.Abrem com uma faixa superpop, Can´t Get You Out of My Head,da blondie Kylie Minogue, e seguem com Peaches, Basement Jaxx,Felix da Housecat, Salt´n Pepa, Garbage, Residents, Nena, FrankDelour, The Breeders e até a country grandma Dolly Parton.Stephen e David são cantor e guitarrista do grupo belgaSoulwax, e seu foco de interesse abrange um coquetel cultural:disco music, punk rock, rock´n´roll, cultura bootleg e electro.Sua ambição, como assinalam na Internet, é maior do que fazermúsica para tocar no bar ou na butique. Mas o resultado édemocrático, pode servir tanto para um caminho quanto paraoutro. A gravadora Sum Records, que representa o selo Pias noBrasil, informou que vai lançar em breve o álbum no País.

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