Fundación Violeta Parra
Fundación Violeta Parra

100 anos de Violeta Parra, a mais importante folclorista chilena

Confira fotos, vídeos e uma retrospectiva da vida, obra e legado da artista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 12h13

Sua vida – seus amores – resultaram em canções admiráveis. Deram origem a livros, estudos literários e políticos, a um belo filme. Violeta Parra, ou a mulher que amou demais. Violeta del Carmen Parra Sandoval foi uma compositora, cantora, artista plástica e ceramista chilena, considerada a mais importante folclorista e fundadora da música popular de seu país. Nesta quarta, 4, completam-se 100 anos de seu nascimento.

Ela nasceu em San Fabián de Alico, no sul do Chile, em 1917. A família, numerosa. O irmão Nicanor Parra era conhecido como o anti-poeta, em oposição a Pablo Neruda. Outro irmão, Roberto, era folclorista – veio dele a atração de Violeta pelas raízes do Chile. Seus filhos Angel e Isabel tornaram-se músicos, como a mãe. Embora Gracias a la Vida tenha tido interpretações memoráveis de Mercedes Sosa, Elis Regina, Joan Baez e outras grandes, ninguém, nem a própria Violeta, cantou aquela música como Isabel.

“Gracias a la vida/Que me ha dado tanto..” A música sempre fez parte de sua vida e, muito jovem, Violeta já se apresentava com os irmãos, participando do sustento familiar. Seu primeiro marido foi um ativista comunista. Com ele, Violeta iniciou-se na política, participando da campanha para eleger Gabriel González Videla presidente do Chile em 1944. No ano seguinte, como Violeta de Mayo, e acompanhada pelos filhos, começou a cantar numa confeitaria elegante de Santiago. Em 1948, separou-se do marido, Luis Cereceda. Naquele mesmo ano gravou o primeiro disco com a irmã, Hilda.

Eram ‘las hermanas Parra’. No começo dos anos 1950, e encorajada por Nicanor, Violeta começou a pesquisar a autêntica música chilena. Percorreu o país pesquisando, compondo e cantando. O folclore lhe fornecia a base. Aprendeu a tocar ‘guitarrón’, um instrumento tradicional do país. Em 1955, fez a primeira viagem à Europa, para se apresentar num festival de música na Polônia. Simultaneamente com a atividade musical, descobriu a cerâmica e a pintura. No começo dos anos 1960, já consagrada, voltou à europa para participar de um festival da juventude em Helsinqui.

Como artista engajada, excursionou pela União Soviética, Alemanha, Itália e França. Conheceu e apaixonou-se por Gilbert Favre, com quem foi viver na Suíça. Mudaram-se depois para o Chile, onde ela fundou sua ‘peña’, para apresentar sua música. Além da raiz chilena, ela absorveu elementos musicais da Bolívia e da Venezuela. Ligou-se a um grupo, Los Jairas. Intensa, na arte como na vida, teve grandes amores. Separou-se de Favre, tentou reatar, mas ele se havia casado. Em 1967, suicidou-se com um tiro na cabeça. É reconhecida como a mãe da Nova Canção Chilena. Sua memória e filhos sofreram represálias e perseguições durante a ditadura militar de Augusto Pinochet.

A tudo sobreviveu. Como um hino, Gracias a la Vida ganhou diferentes versões de artistas de todo o mundo que se mobilizaram para levantar recursos para as vítimas do terremoto de 2010 no Chile. Nenhuma de suas demais composições – talvez Volver a los Diecisiete – ganhou tanta projeção. Essa história cheia de paixão e sofrimento virou filme de Andrés Wood, Violeta Se Fue a los Cielos Violeta Foi para o Céu. Francisca Gavilan, no papel título, ganhou diversos prêmios de melhor atriz, no Chile e em todo o mundo. Wood constrói uma bela metáfora que inclui um pássaro, o condor chileno.

Em, 2001, o turco-italiano Ferzan Ozpetek fez um filme chamado Le Fati Ignoranti. No Brasil, chamou-se Um Amor Quase Perfeito. Uma mulher, após a morte do marido, descobre que ele tinha um affair – com um homem. Ela própria se torna amante desse homem, que frequenta um meio de gays e trans. Uma das trans está morrendo – de câncer de próstata. Num momento doloroso, a morte anunciando-se, o grupo todo se reúne ao redor de uma mesa para cantar... Gracias a la Vida. É de uma beleza de cortar o fôlego. E o casal formado por Margherita Buy e Stefano Accorsi toca o sublime. Ozpetek honra os versos imortais – ‘Gracias a la vida que me ha dado tanto

Me dio dos luceros que cuando los abro

Perfecto distingo lo negro del blanco

Y en el alto cielo su fondo estrellado

Y en las multitudes el hombre que yo amo’.

Ou seja – ‘Obrigado à vida, que me deu tanto

Me deu dois olhos e quando eu os abro

Perfeitamente distingo o negro do branco

E no céu seu fundo estrelado

E na multidão o homem que amo.’

Esse homem amado foi a obsessão de Violeta Parra. Atravessa sua obra. Uma visceral apaixonada pelo Chile. E pelo amor.

Mais conteúdo sobre:
Violeta Parra

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.