Rafa Mattei / Moda
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Voz ativa

Um dos maiores ícones da cultura brasileira, Ivete Sangalo conta como a pandemia transformou sua rotina e a forma de ver a vida

Alice Ferraz, Moda

03 de outubro de 2020 | 16h00

É tempo de reinventar-se. Em meio ao momento delicado que vivemos, Ivete Sangalo, um dos maiores nomes da cultura contemporânea brasileira, reforça que ela mesma também passou por um momento de transformação. Em uma conversa intimista e sem as luzes do palco, Ivete diz ser caseira e introspectiva, mas nem por isso menos forte e enérgica. Da sua relação com a família à filantropia, passando pela moda, ela mantém a clareza de quem conhece e reconhece seu espaço e relevância, usando sua voz não apenas para nos alegrar com sua música, mas também para alertar sobre situações prementes da nossa sociedade. Talvez por isso seja aclamada como Rainha do Brasil, mas, ainda assim, chama de majestade a natureza.

MODA: Nossa entrevista coincide com os seis meses de isolamento social, um momento sem precedente na nossa história recente. Nós, brasileiros, passamos pelo processo de busca da natureza, como numa espécie de êxodo, e agora, percebemos que precisamos da cidade e da natureza unidas. Como está sua conexão com a natureza?

Ivete Sangalo: A minha conexão com a natureza sempre foi o viés mais importante do meu dia a dia, ainda mais porque eu sempre encontrei nela um refúgio pra minha vida estressante de shows e viagens. Foi ela a minha maior parceria, do ponto de vista emocional e mental, o lugar onde consigo reconstruir a minha ideia de como viver bem, pós estresses. Estresses não necessariamente negativos, mas que não deixam de ser estresses, os deslocamentos, a distância de casa. Embora demonstre muita energia no meu trabalho, sou extremamente caseira e introspectiva. Na pandemia, tive a sorte e o privilégio de poder passar esse tempo na minha casa, onde estamos inseridos completamente num ambiente onde a natureza é a majestade sempre. 

MODA: Você, que é pioneira nos “feats”, surpreendeu com a recente colaboração com Vitão, em “Na Janela”. Nesse isolamento, o que conseguiu ver pela sua janela?

Ivete Sangalo: Tem uma ideia que perpassa pela ansiedade que nos acomete hoje. É natural do ser humano ter uma tendência a ser ansioso pelas expectativas, mas com a tecnologia e com o advento das redes sociais, isso se tornou uma necessidade vital. Estar presente, estar em todos os lugares, gerou na gente uma ansiedade imperceptível, que acometeu a toda sociedade. Nessa pandemia as pessoas não tiveram outra alternativa, senão se conectar consigo e com as coisas que de fato são relevantes na vida delas. Pessoas a quem de fato elas devem manter relacionamentos, pessoas que ajudam você a construir e a reavaliar suas sensações. Da minha janela, dessa permanência em casa por conta da pandemia, percebo que a gente conseguiu reavaliar uma serie de comportamentos.

MODA: A moda, como símbolo de um tempo, é uma forma de comunicar quem somos. Como você enxerga a moda na sua vida?

Ivete Sangalo: A moda é uma revelação do que você é. Me visto partindo das coisas que acredito, especialmente do conforto. A moda é o que se veste e quando seu comportamento é colocado ao expor sensações e ideias a partir de algo que você veste. Independente dela ter um objetivo ou não de se expressar. Não necessariamente toda vez que você veste uma roupa você queira expressar algo, mas naturalmente isso já está colocado como expressão. Muitas vezes vesti coisas que não se adequavam a minha tranquilidade e alegria. No meu caso, quando você passa a priorizar as suas ideias de como se vestir, isso é uma expressão de moda, mesmo que não haja intenção. É também uma forma de arte. É tão bom quando você se identifica com algo, até mesmo quando você nunca imaginou, e aquilo fazer parte do seu raciocínio.

MODA: Desde 2013 você é Embaixadora da Onu e usa a sua voz contra o Tráfico de Pessoas e a favor de mulheres. Pode nos contar um pouco sobre sua atuação nessa causa?

Ivete Sangalo: Embora não se falasse muito a respeito do tráfico de pessoas, ele existe e, nesse exato momento, coisas terríveis estão acontecendo, pessoas estão enclausuradas, fazendo trabalho escravo e traficando órgãos. Isso foi um chamado do Ministério Público do Trabalho e da ONU a mim, que sou uma pessoa pública, para que eu, por meio da minha voz, consiga alertar e conscientizar o público dessa realidade subterrânea. Embora seja doloroso falar sobre isso, existem muitas famílias que passam pela angustia de não saber onde estão seus entes. No momento que eu tomei consciência disso, de que a informação traz a luz, consciência e mobilização, tivemos muitas conquistas.

Edição de Moda: Marco Gurgel

Beleza: Markito Costa

Agradecimento: Sarah Mega Hair

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