Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Votuporanga X São Paulo

Viver em São Paulo e trabalhar com moda era tudo o que ela queria. Ali, sentia-se realmente viva, cumprindo seu destino. Mas aí veio a pandemia

Alice Ferraz, Moda

22 de agosto de 2021 | 15h00

Para uma menina de Votuporanga, interior de São Paulo, ela sabia que estava indo longe e era onde queria. Sua cidade natal era seu berço, lugar de afeto, mas nunca esteve em seus planos de futuro. A vida calma, os horários estabelecidos, o olhar de lupa dos vizinhos e parentes sobre sua vida, hábitos da cidade pequena, e a falta de espaço para acontecimentos imprevisíveis tinham um efeito angustiante em sua personalidade. Seu corpo tinha nascido em Votuporanga, já sua alma... Dizia: “Sou sagitariana, estudei meu signo e sei que fui feita para voar”. Sempre se considerou do mundo. 

Sua paixão pela moda a trouxe para São Paulo dez anos antes. De lá pra cá, acompanhada da sorte que a melhor vidente de sua cidade já tinha dito que ela tinha, conseguiu entrar na empresa dos seus sonhos. Viver em São Paulo e trabalhar com moda era tudo o que ela queria. Ali, sentia-se realmente viva, cumprindo seu destino. Mas aí veio a pandemia e ela se viu trancada com o namorado em um pequeno apartamento na cidade gigante que adormeceu por meses – e isso foi só o começo. 

A empresa, para não demitir, cortou os salários pela metade, enquanto o trabalho se multiplicou, agora 100% online, sem contato, sem a beleza das roupas das colegas do escritório, sem os almoços e conversas interessantes por São Paulo, sem família para aconchegar, sem espaço para respirar. E foi assim, mês após mês, que ela foi murchando e Votuporanga foi crescendo dentro dela, invadindo os espaços que São Paulo não conseguia mais preencher. 

Quando a empresa autorizou o trabalho presencial alguns dias da semana, seguindo todos os protocolos de saúde, ela já não era mais a mesma, nada era o mesmo. O sentido daquele trabalho superdimensionado com tintas vibrantes que coloriam sua vida, agora parecia algo datado. Trabalhar com moda durante a pandemia sugeria uma frivolidade quanto à realidade que o mundo, e ela mesma estava vivendo. Seu interesse diminuiu, sua atuação enfraqueceu, os clientes notaram e a chefe entendeu. O lugar de Votuporanga em seu ser era claro: a natureza, a família, a comida caseira e o apoio da comunidade faziam falta e eram agora parte do seu repertório diário. Pediu demissão. 

Achou que fosse ser chamada de ingrata por deixar a empresa em seu momento mais desafiador, mas foi recebida com olhar atento, conversa, apoio, aconchego e espaço para ser livre. Passou dias felizes imaginando sua volta triunfal, depois de 10 anos em São Paulo. A cidade de 95 mil habitantes a receberia de braços abertos. Seu estilo de mulher cosmopolita certamente traria clientes para uma futura consultoria de moda e ela, aos 28 anos, casaria, teria seus filhos e uma estabilidade emocional bem-vinda. 

Cumpriu os 30 dias de aviso prévio com energia renovada e ofereceu para ficar mais 30 se a empresa precisasse. Precisavam. Foram dois meses de redescobertas e, quanto mais livre se sentia para ir embora, mais São Paulo avançava em cima de Votuporanga. A vibrante beleza da moda era agora de uma intensidade que a emocionava. Tinha novamente um propósito, sentia-se renascendo e a imprevisibilidade e as oportunidades de São Paulo a abraçavam com força esmagadora. No terceiro mês em que continuava atuando, resolveu pedir uma nova reunião com a chefe e se “desdemitiu”. Foi aceita.

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