Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Voo solo

Os sinais de que algo tinha mudado começaram com pequenos gestos em que ele demonstrava o desconforto com as regras da casa que, por tantos anos, foi sinônimo de lar

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 15h00

Depois de 24 anos juntos, ele se preparou para ir embora. Os sinais de que algo tinha mudado começaram com pequenos gestos em que ele demonstrava o desconforto com as regras da casa que, por tantos anos, foi sinônimo de lar. Como se o espaço físico tivesse encolhido – sentia-se “espremido”. Tentou não demonstrar a velocidade com que foi tomado pela angústia de ser livre. Buscava, assim, convencer-se que ainda não era a hora de partir. Mas, em pouco tempo, o esforço já não era suficiente. Nenhum sentimento, nem mesmo o amor por ela, poderia impedir o voo solo. 

A verdade é que ele deveria ter tomado essa atitude antes, mas não teve coragem de magoá-la. A dedicação, o cuidado e o amor dela haviam transformado a vida dele. Havia, então, um sentimento de débito, diante de um amor tão incondicional. Agora, no entanto, sentia-se frustrado por ter deixado a relação seguir por um caminho de cobranças que poderiam ter sido evitadas. 

Leia Também

Eu ali, eu aqui

Eu ali, eu aqui

Ela tinha horários rígidos e estava sempre de olho nas chegadas e partidas dele. Antes, o cuidado que ela tinha com os horários das vitaminas dele era reconfortante, mas agora passou a ser opressor. Ela também já não fingia mais gostar das músicas que ele ouvia e pedia silêncio na casa. Algo que para ele era impossível por causa da energia pulsante que pedia vida. 

Uma vida maior que aquela casa segura, com braços e abraços afetuosos e o conforto do amor constante. A pandemia tinha adiado seus planos. “Como deixá-la nesse momento?”, perguntava-se. Ela sempre demonstrava mais valor em tempos difíceis, era dedicada, trabalhava com mais afinco, equilibrava funções e continuava a amá-lo, mesmo com as diferenças agora claramente irreconciliáveis. 

Em uma manhã de sexta-feira, no entanto, ele decidiu. Tomou coragem para dizer que iria construir seu caminho, seu espaço e sua própria vida. Ela não recebeu a notícia com surpresa, não tinha como não ter lido os sinais que ele havia deixado pelo caminho. Segurou o choro, aceitou e até viu no aplicativo as opções de minúsculos apartamentos que ele estava escolhendo para morar e ser mais feliz. Ela pensou em como descansaria de agora em diante sem saber que ele dormia seguro ali ao lado. À tarde, ela teve febre, “um buraco no estômago” e uma estranheza. O sentido da vida meio desfocado. 

O filho único havia transformado a vida quando chegou 24 anos antes. Desde então, foi seu chão, sua prioridade, seu amigo, sua melhor companhia e suas conquistas. Muitas vezes a única prova de que ela estava, sim, seguindo o caminho certo. Agora, o ninho estava prestes a se tornar vazio e assim tinha que ser.

Tudo o que sabemos sobre:
músicaepidemia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.