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Vestida de Brasil

Andrea Bogosian embarca em uma viagem para o Pantanal em seu verão 2022

Alice Ferraz, Moda

22 de agosto de 2021 | 07h00

Nunca foi fácil encontrar referências de uma moda brasileira que se nutre do próprio Brasil para criar coleções para um público consumidor de moda no sentido de hi-fashion ou alta moda. Por muitos anos, o olhar criativo que busca inspiração se voltou para fora, para as paisagens exóticas do Vietnã, as flores e animais selvagens africanos, os jardins e as rosas de Grasse, na França. Cores do pôr do sol da Califórnia ou o Azul Klein do Marrocos vira e mexe também são fontes de inspiração por aqui, e a lista segue como se outros países, paisagens e animais fossem mais aptos a esse papel. 

A conclusão é que estilistas brasileiros, principalmente de marcas de luxo, criaram o hábito de importar imagens e referências do mundo todo em detrimento de um olhar local. Em um país com dimensões continentais, a moda deixou escapar paisagens exuberantes e assim, por anos, animais como a majestosa ave tuiuiú ou então as araras-azuis com os seus densos tons de azul nunca foram fonte de inspiração para as coleções. 

Será que a proximidade com a própria beleza que nos cerca nos deixou anestesiados para tais maravilhas? Será que a tradução da nossa fauna e flora para moda não encontrou um espaço que não tenha sido visto como uma espécie de caricatura? Mas durante a pandemia, o olhar das marcas de moda parece finalmente ter encontrado no território nacional caminhos para mostrar ao mundo o que temos de melhor ao abrir as portas de um verão mais, digamos, brasileiro. 

Andrea Bogosian está entre as estilistas que privilegiaram o Brasil. Dona da marca homônima presente em 70 multimarcas em 17 Estados do País, a empresa trabalha com 85% de matéria-prima feita no Brasil. A produção de todas as peças é feita por aqui e, a maior parte, em fábrica própria. Há anos, no local, profissionais passam por capacitação para poderem fazer trabalhos manuais com a qualidade que o mercado de luxo pede. 

Mesmo com todo esse olhar voltado para o País, Andrea confessa que a fauna e flora brasileiras eram preteridas em suas coleções. Mas, com a pandemia, ela afirma que descobriu o próprio país. A estilista prepara-se para lançar sua nova coleção de primavera-verão 2022 com um mergulho – de cabeça! – no Pantanal e traz para a sua moda o resultado de uma imersão transformadora, que se materializa em uma coleção que ela diz “brasileiríssima”. 

O primeiro contato com o bioma ocorreu quando a diretora criativa conheceu as obras do renomado fotógrafo João Farkas, que dedicou anos da vida em expedições para registrar um Pantanal verdadeiro e majestoso. Daí nasceu o desejo de conhecer mais e uma viagem à região mudou sua visão sobre o que as clientes poderiam desejar para vestir no primeiro verão brasileiro “pós-pandemia”. 

“Foi uma experiência reveladora que me abriu novos horizontes em relação à vida e ao trabalho. O Pantanal é um lugar que convida à contemplação, ao mesmo tempo que, pessoalmente, me fez perceber a força e a intensidade da sua beleza e natureza selvagem”, diz Andrea, que lá descobriu querer se vestir daquele novo Brasil que acabara de conhecer. 

Na volta da viagem, nasceu a parceria com João Farkas e a primeira estampa da história da marca, fundada em 2008. A impactante imagem da florada das piúvas pantaneiras, que tingem a paisagem local com um rosa intenso durante poucas semanas no ano, transformou-se pelas mãos de Andrea em um padrão floral com fundo escuro, aplicado em peças de seda pura 100% nacional.

 “Um mix de moda, arte e natureza, criado a quatro mãos com o João”, conta Andrea. “Estou imensamente satisfeito por ter meu trabalho colocado agora no universo da moda. Ver as belezas ameaçadas do Pantanal virarem desejo, traz uma valorização até então ignorada pelo segmento para com essa parte do Brasil”, comenta um emocionado João Farkas sobre a parceria. 

A coleção também traz a onça-pintada, o maior felino das Américas, que tem lugar na lista dos animais em extinção, e o tuiuiú, a ave de 1,60 m que com seus impressionantes 2,5 m de envergadura constrói ninhos de até 3 m de diâmetro. “O fato de que minhas roupas estão levando um pouco da essência e da beleza do Pantanal às mulheres é, na verdade, só o começo da jornada. 

O objetivo maior é fazer com que as pessoas se inspirem, valorizem, cuidem e conservem a nossa natureza.” Para incentivar tal ação, Andrea destinou uma porcentagem do faturamento da coleção para projetos no Pantanal. “Vestir-se de Brasil, cuidando do Brasil, é um caminho sem volta para a marca e para minha vida”, garante.

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