Ilustração: Juliana Azevedo
Ilustração: Juliana Azevedo

Vacina ostentação

Foram quase dois anos sem as reuniões formais e presenciais – assunto é o que não falta, mas todos têm o mesmo foco nos dias de hoje: a vacina

Alice Ferraz, Moda

05 de setembro de 2021 | 15h00

As reuniões de trabalho têm agora uma nova conversa de aquecimento. O tempo e a família foram, afinal, substituídos, depois de uma vida estando entre os temas favoritos daquele momento “quebra-gelo” antes de um encontro profissional. Foram quase dois anos sem as reuniões formais e presenciais – assunto é o que não falta, mas todos têm o mesmo foco nos dias de hoje: a vacina

– Tudo bem? Quanto tempo! Vacinada? 

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– Sim! Tomei a segunda dose esta semana, estou mais tranquila. 

– Já? Nossa, tomei apenas a primeira. Qual você tomou? 

– Pfizer 

– Claro...você, né! 

De encontro em encontro, quem tomou Pfizer cresce, quem tomou Janssen é até “considerado” e quem tomou Coronavac se dá por vencido, “qualquer uma vale, né?”, dizem, com os olhos sorrindo “amarelo” entre as máscaras. Nenhuma das indústrias farmacêuticas que fabrica vacinas contra covid-19 fez um plano estratégico de posicionamento, muito menos construiu a imagem de marca em estudos elaborados por agências de comunicação ou pensou que a vacina pudesse virar sinônimo de status, mas, no Brasil, virou.

Costumamos investir nosso dinheiro na bolsa da marca tal, no sapato, na roupa, na gravata, no carro, no restaurante, no hotel e nas classes dos aviões, mas agora está mais difícil. O nome da fabricante da vacina que tomamos, todos sabem, é para ser uma escolha aleatória, mas avaliações e julgamentos são feitos e piadinhas, reiteram: “Você tem cara de Coronavac, claro que trocaram na hora que te viram”, ouve-se, em tom de brincadeira, como se o destino privilegiasse os mais abastados que passam a ter ainda mais status. 

“Como se posicionar em uma reunião com pessoas influentes que só tomaram Pfizer?”, foi a pergunta que um colaborador disparou durante um encontro. Resposta padrão: “Não estou planejando viajar, então, tanto faz” ou “a Pfizer pode ser perigosa, preferi a Coronavac, coisa nossa”. Apesar de todo esse debate, a ciência mostra que todas as vacinas disponíveis no Brasil são seguras e eficientes. A comparação entre elas não faz sentido técnico porque foram testadas em grupos de pessoas diferentes.

Na verdade, a simples pergunta, “qual vacina você tomou?” já demonstra que existe uma classificação por estrato social, pois nunca alguém na vida soube ou perguntou qual nome da vacina para varíola que tomamos. Será que existe mais que uma? E febre amarela? E gripe? Está claro: a marca da vacina importa agora. É o Brasil lançando a moda da vacina ostentação.

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