Uma carta a Zuza

Uma carta a Zuza

Jornalista Ubiratan Brasil fala sobre o musicólogo Zuza Homem de Mello

Ubiratan Brasil, Moda

07 de novembro de 2020 | 16h00

As mensagens chegavam de surpresa, pipocando na caixa de e-mail. O conteúdo, no entanto, era esperado: em um texto curto, mas preciso, Zuza Homem de Mello comentava alguma recente matéria publicada no Caderno2 (por ora, Na Quarentena) e, em meio aos elogios (muito raramente, críticas), acrescentava um dado, um raciocínio que, se fosse possível, deveria constar no texto.

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Zuza foi um jornalista especializado na história da música popular brasileira. O mais curioso é que, há anos, ele já fazia parte da história que pesquisava. Foi escrevendo sobre jazz, em 1956, que Zuza iniciou um trabalho que se tornou ímpar, pois relatava o que pesquisava e também via, uma vez que esteve presente em eventos históricos da música, no Brasil e no exterior. “É preciso aprender a ouvir”, dizia ele, um mantra descoberto quando estudou musicologia em Nova York, nos anos 1950.

E ouvir, para Zuza, não se resumia a escutar música – conversador cativante, parecia disponível para qualquer pessoa, especialmente aquelas que buscavam algum auxílio para um trabalho relacionado à música. Com uma dicção perfeita, fruto de anos de trabalho no rádio, e um ligeiro sotaque paulistano, Zuza revelava uma erudição, mas tinha prazer em compartilhar esse conhecimento: sua conversa ajudava a iluminar o processo criativo de quem o procurasse.

Era um homem que admirava as diversas artes, pois era possível encontrá-lo em lançamentos de filmes, em festas literárias e, claro, em apresentações musicais – sempre ao lado de Ercília Lobo, alma gêmea com quem conviveu durante 35 anos.

Recebi seu último e-mail na manhã de uma quinta-feira, no qual traçou um perfeito alinhamento entre a obra da escritora infantil Ruth Rocha, que lançava mais um livro, e do cartunista argentino Quino, falecido no dia anterior. “Ambos usam personagens infantis para falar do mundo adulto, o que lhes permite os insights de dizer na lata o que pensam, sem a menor dose de censura”, escreveu ele, encerrando, como de hábito, com “besos do Zuza”.

Ele morreu no domingo seguinte, 4 de outubro. Dormindo placidamente, poeticamente, sem grande alarde, pois não era de seu feitio. Sua partida causou espanto e imensa dor, como mostraram as inúmeras mensagens de pesar deixadas por fãs e admiradores, alguns ilustríssimos, como Wynton Marsalis. Em todos, abriu-se uma lacuna. Para mim, já percebo como fazem falta nossas conversas virtuais.

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