Cortesia Galeria Nara Roesler
Cortesia Galeria Nara Roesler

Um sonho de liberdade

Centenário de Léon Ferrari, morto em 2013, ativa reflexões sobre a obra de um dos grandes artistas da Argentina que viveu em São Paulo

Ana Carolina Ralston, Moda

18 de julho de 2020 | 16h00

Março de 1976. A então presidenta da Argentina, Isabelita Perón, é deposta e uma ditadura militar se instaura no país. Léon Ferrari (1920-2013), já perseguido pelo poder argentino por lutar pela liberdade do povo e por causa do desaparecimento (e assassinato) de seu filho Ariel, se vê obrigado a procurar asilo. Nesse mesmo ano, desembarca no Brasil, mais especificamente em São Paulo, onde permanece até 1991. A vida do artista, tido como um dos mais importantes da história da Argentina, é, então, interlaçada ao cotidiano paulistano, em uma época dura para grande parte da América Latina. Em setembro de 2020, o mundo comemora o centenário de Ferrari, que tanto contribuiu para evolução e revolução da arte contemporânea.

Tão célebre quanto debatido, Ferrari teve uma trajetória polêmica por incluir com frequência conceitos políticos e sociais em seus trabalhos. Questionava todo tipo de dogma e chegou a ter exposições censuradas pela carga crítica. Entre elas, uma retrospectiva realizada no emblemático Centro Cultural Recoleta, em 2004, que provocou uma forte reação de setores católicos. O atual papa Francisco, então arcebispo de Buenos Aires, chegou a chamá-lo de “blasfemo” em um comunicado oficial.

Por meio da apropriação de imagens, o artista realizou emblemáticas colagens em releituras da Bíblia, mais especificamente do inferno. Um exemplo disso está em Juízo Final, original de Michelangelo, que foi reinterpretada e submetida a dejetos de pássaros em uma das suas grandes composições performáticas. Seu reconhecimento chegou a esferas ainda maiores em 2007, quando ganhou o prestigiado Leão de Ouro da Bienal Internacional de Arte de Veneza, que culminou com convite para uma importante mostra de seu trabalho no MoMA de Nova York, dois anos depois. 

Por causa da atual pandemia sanitária provocada pela covid-19, muitas das retrospectivas e exposições a serem realizadas sobre o centenário do argentino acabaram sendo adiadas ou canceladas, entre elas uma fantástica exposição no museu Reina Sofia, em Madri, ainda sem nova data de inauguração. Outros espaços, no entanto, preferiram seguir a programação de forma virtual, como foi o caso da galeria brasileira Nara Roesler, que representa o espólio do artista no Brasil.

Nos anos em que o portenho viveu na capital paulista, revisitou a prática do desenho abstrato, tão trabalhada por ele na década de 1960.  Sua passagem pela cidade de São Paulo foi fundamental para a definição do rumo de sua obra, como as estruturas prismáticas, que parecem gaiolas, uma das mais reconhecidas séries do argentino, que seguem atuais por questionarem os limites da liberdade do ser humano, tão ameaçada nos dias de hoje.

Tudo o que sabemos sobre:
moda

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.