Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Um rosto sem história

O rosto ali estampado na tela do celular não era o dela, tinha algo de “sem identidade” que se revelou em alguns minutos de observação no veredicto: sua cara parecia “sem idade”

Alice Ferraz, Moda

15 de agosto de 2021 | 15h00

O jantar tinha sido marcado com quatro meses de antecedência, em meio à pandemia e ao abre-e-fecha dos restaurantes. Mas a longa espera era natural, fosse ou não nesse período, por ser ele um estrelado restaurante Michelin. Aconteceu que ela havia tomado sua tão esperada segunda dose da vacina naquele mesmo dia, então a noite se tornou, em seu imaginário, um jantar romântico e de comemoração. Depois de um ano e meio sem saírem, ansiava por um encontro com seu marido, daqueles cheios de conversas ao “pé do ouvido” e planos para um futuro próximo, com mais liberdade. 

E como a vida, já sabemos, é cheia de imprevistos, o restaurante teve que alterar a configuração de lugares e, em vez de mesas individuais, os clientes agora sentavam “todos juntos” em um charmoso balcão do renomado chef japonês. “Todos” eram os únicos seis privilegiados que agora poderiam desfrutar dessas delícias tão esperadas. Com algum distanciamento, estava claro que jantariam agora “todos juntos”. 

Em poucos minutos, o grupo já parecia se conhecer há tempos e o assunto passou da comida deliciosa às futuras viagens, abertura de fronteiras, países que cada um gostaria de conhecer e novas experiências – a tal liberdade em pauta, ou pelo menos a busca por ela que parecia começar a dar as caras. Até que a aparência das brasileiras se tornou o tema e alguém do grupo levantou uma afirmação como um elogio: “São as mulheres mais bem tratadas do mundo, mulheres que se cuidam”. A “verdade absoluta” dita com alegria e orgulho foi imediatamente aceita pelos cinco homens do grupo. 

A partir daquele momento, uma bifurcação se abriu e ela se viu entrando em outra porta. A afirmação “as mais bem cuidadas do mundo” reverberava em sua cabeça. Naquela mesma manhã, havia feito fotos de divulgação para o trabalho. As imagens estavam boas, mas algo a incomodara. O rosto ali estampado na tela do celular não era o dela, tinha algo de “sem identidade” que se revelou em alguns minutos de observação no veredicto: sua cara parecia “sem idade”. Foi então que pediu para ver as fotos com e sem tratamento, uma ao lado da outra, e ficou claro que o apagar das marcas era exatamente o que a deixara com um rosto que poderia ser chamado atualmente de “ageless”, ou, como concluiu, uma cara de extraterrestre que acabou de aterrissar no planeta, sem história alguma. 

Pediu, então, para deixarem a cicatriz embaixo do olho direito, que fez aos 7 anos pulando amarelinha na escada da casa que passou a infância. A lembrança da casa, do dia do acidente, do cuidado e apreensão do pai pegando-a no colo e levando-a ao hospital, voltou imediatamente a sua mente: o cheiro daquele dia, a luz, as vozes, tudo. Olhou a foto com a cicatriz e se gostou mais. 

Pediu, então, para deixarem a ruga entre as sobrancelhas que a conferia um rosto mais “bravo”, mas que trazia também uma expressão de confiança, de seriedade. Lembrou-se da sobrancelha do pai, da sua força e caráter. Gostou mais da imagem. Pediu também para deixarem o real tamanho do seu quadril. Com ele, não ficava com o corpo da moda atual, mas sua real imagem a fez pensar sobre a força da genética – sua mãe tinha o corpo idêntico. “Para ser da minha família, tenho que ter um quadril”, pensou e riu sozinha. E, assim, de traço em traço, voltou a ser ela mesma. 

O portal que a levou embora do jantar voltou a se abrir e ela retornou de súbito à conversa sobre a mulher brasileira. “Que seja a mais bem cuidada, mas não a mais apagada”, disparou. Ninguém respondeu. E o jantar seguiu com a tal “liberdade” como tema.

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