Uýra Sodoma
Uýra Sodoma

Terra em Transe

Parte da próxima Bienal de São Paulo, a artista Uýra Sodoma enaltece a cultura indígena e conscientiza a população sobre a preservação ambiental

Beta Germano, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2021 | 07h00

“Em carne de Bicha e Planta. Me montar é uma viagem constante de reconhecimento do corpo que vivo. (...) Os padrões de beleza e tabus sociais nos ensinaram a odiar o corpo real, o nosso corpo. Nos treinaram e desenvolveram produtos para apertá-lo, escondê-lo e maltratá-lo, criando em nossa intimidade incômodos que doem. Adoecemos quando não sentimos o nosso corpo.

"Me montar de Uýra tem sido cura constante e necessária”, declarou o biólogo Emerson. Mestre em Ecologia, educador e artista visual, Emerson ficou conhecido por transformar-se em Uýra Sodoma ou “bicho que voa” – uma entidade que, além de enaltecer a cultura indígena, propõe um debate necessário sobre conservação ambiental e lança luz sobre as comunidades LGBTQIA+.

“Também chamo Uýra, carinhosamente, de ‘árvore que anda’. É sobre as movimentações que nós –  mulheres, pessoas trans, indígenas, pretas e periféricas – precisamos fazer dentro de uma sociedade ainda muito patriarcal, machista, branca, cis, ‘heteronormativa’.”

A personagem nasceu em 2016, quando Emerson viveu um processo de transformação pessoal e passou a experimentar uma montação, que demora cerca de 2 horas, com elementos da natureza no lugar da maquiagem criada pelo homem branco. Ramagens, sementes, conchas, folhas e flores – Uýra está em constante mutação, assim como a natureza, e costuma andar pelas ruas de Manaus e por comunidades fluviais da região levando conscientização ecológica.

Hoje, está entre os 10 artistas selecionados para receber o 7º Prêmio EDP nas Artes, que teve 456 inscritos – os vencedores tiveram suas obras expostas no Instituto Tomie Ohtake este ano. “O trabalho dela chamou atenção primeiramente pela potência visual ­– a presença da personagem nas ruas de Manaus é muito surpreendente. Na sequência, percebemos que a pesquisa é muito vigorosa e completa também. Ela conhece profundamente a fauna e flora da região – tanto na teoria quanto pela vivência”, explica Theo Monteiro, jurado e curador do prêmio. 

Enquanto a natureza resiste, prova-se mais forte que as ações humanas que insistem em massacrá-la, Uýra ganha cada vez mais visibilidade. Neste ano participará da 34a Bienal de São Paulo. Ela faz parte de uma boa leva de artistas indígenas que vêm ganhando um espaço notável no mundo das artes nos últimos anos. “Todos buscamos falar de nossas ancestralidades a partir de experiências pessoais e locais, seja a aldeia ou a cidade. Ao abordar este tema, propomos um olhar e tato mais generosos, vívidos e sinceros com a nossa avó, a natureza. Isso é bonito, é potente”, comenta a artista.

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