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Terra em transe

Parte da próxima Bienal de São Paulo, a artista Uýra Sodoma enaltece a cultura indígena e conscientiza a população sobre a preservação ambiental

Beta Germano, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2021 | 22h21

“Em carne de Bicha e Planta. Me montar é uma viagem constante de reconhecimento do corpo que vivo. (...) Os padrões de beleza e tabus sociais nos ensinaram a odiar o corpo real, o nosso corpo. Nos treinaram e desenvolveram produtos para apertá-lo, escondê-lo e maltratá-lo, criando em nossa intimidade incômodos que doem. Adoecemos quando não sentimos o nosso corpo. Me montar de Uýra tem sido cura constante e necessária”, declarou o biólogo Emerson.

Mestre em Ecologia, educador e artista visual, Emerson ficou conhecido por transformar-se em Uýra Sodoma ou “bicho que voa” - uma entidade que, além de enaltecer a cultura indígena, propõe um debate necessário sobre conservação ambiental e lança luz sobre as comunidades LGBTQIA+ . “Também chamo Uýra, carinhosamente, de ‘árvore que anda’. É sobre as movimentações que nós –  mulheres, pessoas trans, indígenas, pretas e periféricas – precisamos fazer dentro de uma sociedade ainda muito patriarcal, machista, branca, cis, heteronormativa.

A personagem nasceu em 2016, quando Emerson viveu por um processo de transformação pessoal e passou a experimentar uma montação, que demora cerca de 2 horas, com elementos da natureza no lugar da maquiagem criada pelo homem branco. Ramagens, sementes, conchas, folhas e flores – Uýra está em constante mutação, assim como a natureza, e costuma andar pelas ruas de Manaus e por comunidades fluviais da região levando conscientização ecológica. Hoje, está entre os 10 artistas selecionados para receber o  7º Prêmio EDP nas Artes, que teve 456 inscritos – os vencedores estão com obras expostas no  Instituto Tomie Ohtake até o dia 21 de fevereiro. “O trabalho dela chamou atenção primeiramente pela potência visual ­– a presença da personagem nas ruas de Manaus é muito surpreendente. Na sequência, percebemos que a pesquisa é muito vigorosa e completa também. Ela conhece profundamente a fauna e flora da região – tanto na teoria quanto pela vivência.”, explica Theo Monteiro, jurado e curador do prêmio. 

Enquanto a natureza resiste, prova-se mais forte que as ações humanas que insistem em massacra-la, Uýra ganha cada vez mais visibilidade. Este ano participará da 34a Bienal de São Paulo e de duas outras exposições na Europa – sendo uma na Áustria e outra na Holanda. Ela faz parte de uma boa leva de artistas indígenas que vêm ganhando um espaço notável no mundo das artes nos últimos anos. É possível visitar a mostra Véxoa: Nós sabemos, na Pinacoteca, até 22 de março, somente com artistas indígenas e curadoria da pesquisadora e artista indígena Naine Terena; o MAM de São Paulo vai abrir, em setembro de 2021, uma coletiva curada pelo artista Jaider Esbell; e, este ano, o MASP dedica toda a sua programação às Histórias Indígenas. “Todos nós buscamos falar de nossas ancestralidades, a partir de experiências pessoais e locais, seja a aldeia ou a cidade. Ao abordar este tema, propomos um olhar e tato mais generosos, vívidos e sinceros com a nossa avó, a natureza. Isso é bonito, é potente”, comenta a artista.

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