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Técnica ajuda a criar bons papos

Empreendedora brasileira lança projeto que estimula a conversa sobre relevantes temas sociais

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2020 | 05h00

A capacidade de falar é uma das primeiras habilidades aprendidas por nós, seres humanos. Nos primeiros anos de vida, somos capazes de verbalizar nossos desejos, angústias e alegrias – o que facilita, e muito, a comunicação com o mundo. No entanto, o ato de conversar exige maior desenvolvimento mental: no colégio, por exemplo, aprendemos que uma conversa exige no mínimo dois interlocutores, um meio, que pode ser físico ou digital, e uma mensagem. Mas desenvolver habilidades de conversa não é uma tarefa tão simples quanto parece. Um bom papo envolve referências, o uso correto da linguagem, conhecimento de diferentes termos e pessoas dispostas a ouvir e a trocar experiências.

Com isso em mente e uma profunda vontade de contribuir com a sociedade, Tipiti Simonsen Barros, executiva com carreira de sucesso na comunicação, resolveu se lançar em um novo caminho e empreender. Em 2018, lançou o FikaConversas, uma nova empreitada criada para estimular boas conversas e trocas de ideias. Tipiti buscou em cursos de Comunicação Não Violenta, Escuta Lúdica e Design Thinking as ferramentas para desenvolver uma metodologia que leva conversas a lares e empresas por todo o Brasil.

O nome do projeto parte da palavra sueca Fika, uma forma de convidar alguém para uma conversa sobre a vida. Papos esses que, quando organizados pelo FikaConversas, seguem uma fórmula que ensinam pessoas a conversar. As rodas de conversa duram aproximadamente uma hora e são conduzidas por um anfitrião, que se certifica de que todos têm seu espaço de fala, enquanto os demais devem ouvir. Os temas dessas interações são tirados da chamada Caixeta de Palavras, com cards ilustrados e uma breve explicação do assunto.

Os papos organizados pelo projeto partem de alguns preceitos básicos, que incluem estimular a escuta, o não julgamento prévio, abrir a mente para opiniões diferentes, provocar o empoderamento pessoal e humanizar ambientes. Com a chegada da pandemia e as recomendações de distanciamento social, Tipiti Barros levou suas conversas para o ambiente virtual, organizando encontros por videochamadas. “Depois do encontro no #Fikaconversas, os participantes entendem que muitas vezes aprendemos a falar, mas não a conversar. Essa consciência gera um desejo de aprender novas técnicas de comunicação”, explica Tipiti. Algumas regras básicas são: não interromper quem está falando e praticar a escuta ativa, ou seja, prestar real atenção a quem fala. É o começo de um processo importante de empatia e um campo aberto para uma conexão real entre as pessoas. 

Ao levar o projeto pelo Brasil, a empresária também notou a oportunidade de introduzir em suas rodas de conversa palavras contemporâneas, que expressam o espírito do nosso tempo, relacionadas a assuntos como identidade de gênero, empatia, empoderamento feminino, sororidade (fraternidade entre mulheres) e racismo. “Percebi um descompasso nas visões de mundo de várias pessoas que não sabiam os significados de termos que utilizamos atualmente. É possível ver claramente quando a pessoa não sabe o significado de algo e fica se protegendo do não saber – e isso afeta a conversa. Então, mapeei essas palavras, escrevi seus significados e juntei as pontas.”

Recentemente, o projeto ganhou uma nova vertente no que tange a diversidade e a inclusão. Após participar de um evento em que notou a necessidade de se falar mais sobre questões raciais, a idealizadora do FikaConversas convidou a coach e palestrante Ana Minuto para ser sua parceira em rodas de conversa que se iniciam com a chamada: “Você já conversou com uma mulher negra sobre racismo?”. Com isso, a Caixeta de Palavras ganhou novos cards com termos como “Racismo Estrutural”, “Branquitude” e “Colorismo”, ampliando as conversas sobre assuntos importantes e necessários. Se “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, como dizia o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951), então o FikaConversas e sua metodologia podem contribuir para expandir um novo universo sem limites.

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