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Superfantástico

Em sintonia com o surrealismo e o realismo mágico, artistas debatem de forma lúdica as agruras de um mundo em transformação

Ana Carolina Ralston, Moda

30 de maio de 2020 | 16h00

O fotógrafo francês Marc Sommer, 49, não possui celular nem costuma navegar pela internet. Prefere viver entre o mundo mágico dos livros e o das memórias. Não foi fácil encontrá-lo. Afinal, nos acostumamos a estar a apenas um clique de distância de qualquer outro ser humano do planeta. Por meio de sua galerista parisiense Esther Woerdehoff, enfim, pudemos contactá-lo; e a névoa que envolvia aquele artista tão pouco acessível, logo se transformou em um sorriso em nosso rosto. “Minha inspiração e meu processo dialogam muito com os dizeres do mestre brasileiro Machado de Assis. ‘Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações’”, recitou Sommer, em entrevista à Moda. “A pandemia nos revelou nossa impermanência, levantou problemas essenciais que estamos acostumados a reprimir. A linguagem surrealista é uma forma de lidarmos com a realidade.”

As obras fantásticas de Sommer são surpreendentes e improváveis, mas em nenhuma delas, acredite, o artista usa da manipulação da imagem. Todas são criadas a partir de uma paciente elaboração de mecanismos que nos levam diretamente à atmosfera surrealista de forma real. Em Seelekleid, de 2007, ele retrata o busto de uma mulher, que desaparece por detrás dos pontos do tricô. “Todos podemos nos reconhecer um pouco nessa imagem. Ela representa uma alma sensível, que tece um casulo protetor para se isolar do mundo, e não mais se machucar por ele. Talvez essa mulher saia desse casulo como uma borboleta”, conta.

As pinturas da paulistana Ana Elisa Egreja, 36, dialogam muito com o universo de Sommer, já que, para pintar tais cenários fantásticos, a artista primeiramente os cria no mundo real tal qual os fará na tela. “Quando estou pintando, estou com os dois pés no mundo real, parto de lugares que existem e os modifico, incluindo elementos que muitas vezes soam fora da normalidade, mas eles estão lá por uma razão. Estão a serviço da narrativa, que quase sempre é fantástica, porque não quero pintar esse mundo chato – e por ora assustador – em que vivemos”, conta Egreja. Assim, os polvos inseridos na banheira realmente estiveram lá; até a água que invade a sala de estar de uma casa também foi vista no mundo real antes de ingressar no mundo das artes.

O argentino Leandro Erlich, 47, segue o mesmo fio condutor para criar impactantes obras, como Swimming Pool (2004), uma piscina que, embora pareça cheia, contém apenas uma fina camada de água, que permite ao visitante penetrar no ambiente como parte ativa da obra. Ao longo das últimas décadas, Erlich vem criando um conjunto de esculturas e grandes instalações que flertam com a arquitetura, em uma espécie de armadilha visual. “Afinal, o que de fato é a realidade pura?”, indaga Marc Sommer.

 

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