Danilo Sorrino
As modelos Shirley Pitta e Guive na prova de roupas para o pré-desfile da Ponto Firme Danilo Sorrino

SPFW começa edição histórica de 25 anos e institui cota racial

Em meio à pandemia, evento adota formato totalmente virtual e obrigatoriedade de 50% dos modelos serem afrodescendentes, indígenas ou asiáticos

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 05h00

É grande a responsabilidade da São Paulo Fashion Week (SPFW) que começa hoje (4). Após o novo coronavírus causar o cancelamento da temporada, que costuma ocorrer em abril, ficou para esta edição o papel de celebrar os 25 anos da semana de moda. A pandemia ainda desafiou o evento, que segue até domingo, 8, a adotar pela primeira vez o formato totalmente virtual com transmissão dos desfiles nas redes sociais. Entretanto, a expectativa subiu depois que a organização instituiu de maneira pioneira uma cota racial. 

A partir desta temporada, 50% dos modelos de cada apresentação devem ser afrodescendentes, indígenas ou asiáticos, com parentesco até segundo grau. 

Apesar de ser uma decisão histórica, a organização escolheu implementá-la sem grandes anúncios. A regra foi incluída no “manual de convívio coletivo”, como chama Paulo Borges, fundador e diretor criativo da SPFW. O documento é enviado antes de cada edição para as marcas participantes. 

No entanto, a novidade rapidamente se tornou assunto. A modelo Camila Simões destaca que a semana de moda é o primeiro espaço que um modelo brasileiro precisa conquistar. É o evento na capital paulista que define se um iniciante deve ou não voltar para a cidade natal. 

“É preciso lembrar que os 50% não é um benefício, é um direito conquistado”, afirma Camila. Ela, Natasha Soares e Thayná Santos, que participam do coletivo Pretos na Moda, foram decisivas para essa mudança se concretizar. As três modelos “invadiram” uma live de Paulo Borges, em 6 de junho, e cobraram um posicionamento da semana de moda mais importante da América Latina. Paulo Borges reconheceu que era hora de conversar e dar espaço para a “corajosa iniciativa”, como ele define. “O nosso papel é criar condições, mas o protagonismo é de todos os corpos criativos racializados.”

Ao falar sobre as funções nessa indústria, vale explicar que cada marca é responsável pela contratação das modelos. Aliás, o movimento Pretos na Moda também já confrontou os estilistas. Isso aconteceu quando as grifes se engajaram na hashtag Blackout Tuesday, em meio ao movimento Black Lives Matter, e postaram imagens pretas. “Surgiu uma revolta. Se nós não falássemos, iriam usar a causa de forma oportunista”, conta Camila. Segundo ela, foi nessa ocasião que a modelo Thayná relatou ter sofrido racismo em trabalhos para duas grifes: Reinaldo Lourenço (que não participará desta temporada e, na época, declarou ao jornal O Globo “errei e não tenho problema em admitir isso”) e Gloria Coelho, que tem apresentação marcada para domingo, 8. 

“Acho que todas as empresas eram racistas, nós temos que melhorar. Éramos racistas estruturais”, disse Gloria, que disse ter achado as cotas “uma iniciativa muito positiva”. “Neste desfile digital, tenho três mulheres: uma afrodescendente, uma branca e uma oriental.” 

A SPFW encara o racismo de maneira mais contundente em 2020, mas a semana de moda recomenda há mais de dez anos que as marcas participantes contratem pelo menos 20% de modelos afrodescendentes, indígenas e asiáticos. Entretanto, em 2009, o evento firmou um termo de ajustamento de conduta (TAC), que vigorou até 2011, com o Ministério Público do Estado de São Paulo, para que 10% dos profissionais nas passarelas fossem dessas raças.

 

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‘Por que só negras? É o que mais ouço', diz estilista Angela Brito

Criada em 2014 e participando pela segunda vez da SPFW, marca da designer faz desfiles apenas com modelos negras

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 00h00

A estilista Angela Brito, que participa pela segunda vez da Semana de Moda de São Paulo (SPFW), viu como positiva a implementação da cota racial no evento.

“É um passo a mais no que a gente já vem lutando desde que nasce. Como a gente não consegue mudar naturalmente uma coisa que já é completamente natural, é preciso que se tome providências, que todo mundo participe e entenda a gravidade do problema. Se as providências são nesse sentido de instituir obrigatoriamente uma cota, que seja, porque precisa mudar", afirma Angela. 

No entanto, ela não terá que fazer adequações nas práticas de trabalho de sua grife. Desde o primeiro desfile de sua marca na Casa de Criadores, em 2018, sua passarela é composta apenas por modelos negras. 

A mulher, negra, africana natural de Cabo Verde relata ser questionada constantemente sobre o motivo de sua passarela ser composta por modelos negras, e sempre costuma promover um debate. “Por que você não reparou antes que só tinham brancas? Foram décadas de brancas. Alguém perguntou o porquê de só brancas?” 

A designer, que criou a grife com seu nome em 2014, afirma que não é sobre defender espaços apenas para a negritude, mas sobre mostrar que representatividade, principalmente no Brasil, não é inserir “um ou dois” afrodescendentes.

De acordo com Angela, sua equipe de trabalho nos bastidores é diversa, mas a passarela apenas com negras é proposital mesmo. “Quero, sim, levantar esse questionamento. Quero que as pessoas se questionem e me perguntem.”

Angela Brito vai apresentar sua coleção na edição N50 SPFW neste domingo, 8, às 18h30. 

Estreia de Angela Brito na SPFW

Angela Brito estreou na SPFW em outubro do ano passado com um dos desfiles mais disputados entre o público.  Além do time de modelos negras, a estilista levou para a passarela uma coleção inspirada no blues nas décadas de 30, 40 e 50, especialmente pelo ponto de vista do documentarista americano Les Blank. Ela que sempre teve os neutros como os tons principais de sua cartela, dessa vez brincou com nuances de amarelo, azul e verde.

“A questão racial é algo que perpassa a trajetória de todas as pessoas negras, mas é importante que comecem a nos enxergar como indivíduos!”, disse Angela na ocasião para o Estadão. "Há uma expectativa para que eu me expresse de determinada forma por ser mulher, negra e africana esquecendo que sou uma pessoa que tem uma história própria e repleta de especificidades, como por exemplo minha transitoriedade por diversos lugares. Portanto, sou um somatório de todas as minhas vivências, o que me faz ser única."

 

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Cota racial na SPFW: 'O grito por espaço foi ouvido', diz modelo

Rayane Brown tem dois anos de carreira e participou de três temporadas da semana de moda de São Paulo

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 02h36

"Nosso grito por espaço foi ouvido e isso fez com que muitos profissionais olhassem com mais atenção pra nós", afirma a modelo Rayane Brown, 22 anos, sobre a implementação de uma cota racial na Semana de Moda de São Paulo (SPFW)

A partir desta temporada, 50% dos modelos de cada apresentação devem ser afrodescendentes, indígenas ou asiáticos, com parentesco até segundo grau. 

"Espero que haja uma melhora, não só nessa edição, como nas próximas, e não só na SPFW, como em toda a moda, porque nossa luta é diária e sempre existirá", complementa a profissional.

Rayane tem dois anos de carreira, esteve em três temporadas do evento e tem participação confirmada nesta edição. Ela conta que nunca sofreu racismo no evento da capital paulista, mas pondera. "Não vejo isso como positivo porque o racismo é algo que existe em nossa sociedade e pode se manifestar em qualquer ambiente."

Sobre o tratamento que recebe no mercado da moda brasileira, a modelo comenta que sua atuação internacional pode influenciar a maneira como é recebida. "O Brasil historicamente sempre busca valorizar modelos que tem um portfólio de trabalhos ou desfiles internacionais."

 

'Espero que seja uma mudança real, em uma sociedade excludente'

Rosario também já participou de três temporadas da SPFW, mas, diferentemente de Rayane, afirma que já se sentiu discriminada ou sofreu racismo na semana de moda de São Paulo. Participante desta edição do evento, acredita que a cota racial é importante. "Mas sempre estarei torcendo por uma sociedade mais igualitária, onde a inclusão aconteça naturalmente e não precise de cotas para isso", disse a jovem de 19 anos.  

A modelo que tem dois anos de carreira espera que a nova regra seja cumprida em todas as apresentações da semana de moda. "Mais do que isso, espero que seja uma mudança real, em uma sociedade excludente, onde há muitos meninos e meninas negras que não têm oportunidade, que sempre sonharam estar em lugares como as passarelas, assim como eu."

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