Rodrigo Zorzi/Divulgação
Rodrigo Zorzi/Divulgação

Série Antifrágeis: De mãe para filho

Traudi e Bento Guida estão à frente da Souq e são dois antifrágeis que conquistaram seu espaço no varejo de moda brasileira

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 05h00

Como define o escritor Nassim Taleb, a personalidade antifrágil é a de pessoas que evoluem frente a adversidades, e nossa série de textos inspirados pelos conceitos do escritor libanês-americano nos trouxe até a empresária que marcou a moda brasileira, Traudi Guida, e sua continuidade pelas mãos de seu filho, Bento, agora à frente da Souq. Traudi foi o nome que fundou a Le Lis Blanc, marca referência da década de 1990.

Sem graduação formal em moda, a empreendedora cursava a faculdade de direito em São Paulo quando foi convidada para trabalhar como vendedora em uma loja de roupas na Rua Augusta, point da moda da capital paulista na época. A oportunidade surgiu quando seu estilo pessoal chamou a atenção de uma gerente da loja. Guida considera essa como sua entrada oficial ao mundo da moda e como aprendeu de perto a trabalhar duro e conquistar seu espaço. “De vendedora passei para gerente e, dali um ano e meio, uma das clientes me perguntou se eu não queria abrir uma loja em sociedade. Desta forma, com o auxílio do fundo de garantia da minha mãe, que era o único capital que tínhamos, abri o meu primeiro espaço. Eu já conhecia todo o processo e sabia como a roupa chegava a uma butique, na época o berço da moda era o Rio de Janeiro e abrimos a Snoopy, uma loja multimarcas. Depois de um tempo, começamos a fazer sucesso e cair nas graças do beautiful people de São Paulo, e foi aí que começaram minha grande jornada e minha grande faculdade de moda, que, na realidade, foi a prática”, conta Traudi Guida. “Sempre fui muito atirada, muito apaixonada e intensa, características que seguem na minha vida até hoje. Agarro todas as oportunidade que aparecem, sem hesitar”, complementa.

Leia Também

O sagrado

O sagrado

Acostumado a ver sua mãe trabalhar incansavelmente, Bento Guida, que hoje é o CEO da Souq, marca com 30 lojas físicas espalhadas pelo Brasil e forte presença no mercado digital, traz consigo valores que aprendeu em casa, que, aliados à antifragilidade da família e à experiência prévia no mercado financeiro, o tornam um profissional preparado para enfrentar os desafios de um mundo que passa por mudanças rápidas e constantes. Sua forma própria de ver o mundo pauta os planos de crescimento da Souq e a maneira com a qual Bento gere os negócios da família, “a paixão e o nível de detalhe que minha mãe coloca em cada aspecto das áreas que atua criam uma atmosfera que gera um efeito positivo e um padrão de qualidade que eleva sempre a entrega da empresa. Claro que, por outro lado, tenho que gerenciar essas expectativas dentro do time, mas, como CEO, é sempre bom ter um time mais intenso de alta performance do que um time morno”.

Do dia em que abriu sua primeira loja, em uma época quando não se falava de business plan ou de investidores-anjo, até chegar à rede que hoje é comandada pelo filho, Traudi teve que enfrentar desafios e se adaptar ao mercado, feitos que a empresária conta com orgulho: “acho que nenhuma deles me derrubou, pelo contrário, me deram mais força para que não me derrubassem”. Em nossa conversa, Guida lembra de alguns desses desafios que a impulsionaram a achar novos caminhos, “crises como uma inflação absurda que alcançou quase 100%, a troca das moedas, o bloqueio do dinheiro feito por Collor e a vinda de concorrentes internacionais para o Brasil. Acho que, quando você só tem um limão, faça uma limonada com ele, e com certeza vai dar certo, como sempre deu. Lógico que é difícil, as pedras no caminho são enormes, você tem que removê-las com muita força, mas é possível”, conclui.

Atualmente, o grupo comandado por Bento Guida, do qual a Souq faz parte, é chamado WBG Retail e se prepara para o lançamento de sua nova marca, a Ida. A nova empreitada nasce sob um modelo de negócios ambientalmente consciente. “A Ida veio para repensarmos um pouco a forma com que trabalhamos. Não falamos de moda sustentável, sempre chamamos de moda consciente, pois somos uma marca de moda e, por definição, moda gera impacto ambiental negativo. Porém, é importante para nós como empresa termos um modelo menor, com o qual possamos aprender a fazer diferente, questionar os métodos tradicionais com que estávamos acostumados a trabalhar e, principalmente, entregar uma proposta de valor nova para o cliente. Pensamos em toda a cadeia produtiva, aliando fatores sociais e ambientais à moda, considerando também preço”, revela Bento. A Ida é uma grande aposta para o crescimento do grupo, um caminho iniciado pela mãe que se projeta para o futuro com o trabalho do filho. “Temos que continuar nossa jornada do dia a dia sabendo que ela não é linear e que o prazer da vida não está somente na conquista, mas na jornada durante essa conquista”, finaliza o empresário.

Tudo o que sabemos sobre:
moda

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.