Juliana Azevedo
Juliana Azevedo

Segundo tempo

A questão é que se seu corpo dizia uma coisa, a cabeça e a alma diziam outra

Alice Ferraz, Moda

08 de agosto de 2021 | 15h00

Ela vinha se sentindo cansada e cansada. A falta de ânimo era constante até para o que mais gostava. Achou que era depressão e, de médico em médico, ouvia diagnósticos parecidos, algumas vitaminas e menos trabalho. “É natural na sua idade”, diziam. Se aquietou por algum tempo, mas sua personalidade não a deixaria se conformar. “Natural na minha idade? Que idade é essa, afinal, que nos faz querer ficar deitada sem fazer nada? Isso não é idade de vida, é idade de morte.” Voltou a procurar os médicos, voltou a ouvir a mesma resposta, voltou a imaginar uma saída. 

A questão é que se seu corpo dizia uma coisa, a cabeça e a alma diziam outra. A falta de concentração para seu trabalho mental vinha acompanhada de planos de crescimento profissional. A exaustão que a fazia dormir 12 horas tirava o tempo para execução de sonhos que permaneciam, mesmo assim, em combustão constante só aguardando a força física para entrar em operação. Não era possível desejar fazer tanto e poder fazer tão pouco.

A vida ainda pulsava dentro dela. Faltava algo, isso estava claro, a questão era: o quê? E com a ideia fixa na descoberta para o que era o “natural para a mulher na sua idade” refletiu que seus médicos, todos homens, podiam ter estudado, mas não conheciam, por experiência, o que era exatamente ser uma “mulher naquela idade”. 

Resolveu, então, ligar para mulheres na tal idade. A cada ligação, um véu era retirado. Ouvia de mulheres conscientes da luta para não se deixar conformar com o tal diagnóstico. Na primeira conversa, ouviu de cara, pela primeira vez, que poderia estar entrando no climatério – período em que a mulher passa da fase reprodutiva para menopausa – e a palavra lhe deu um calafrio. Todas as ligações a levaram à constatação do difícil, único e solitário caminho para a menopausa vivido pelo sexo feminino. 

Ouviu durante dias experiências diferentes, mas com denominadores comuns: cansaço, dificuldade de concentração, tristeza, falta de informação e vergonha de se expor ao parceiro, tanto em mulheres no auge de suas carreiras profissionais com vidas ativas e cheias de sonhos como em mulheres com uma vida mais tranquila.

Além das conversas fundamentais com suas iguais, foi ler sobre o assunto. Procurou uma médica mulher para poder abrir o coração e falar sobre suas incertezas e também certezas. Encontrou amparo e informação nos novos estudos sobre o tema, hormônios, vitaminas, exercícios, livros. Entendeu que a ciência trabalhou a favor das mulheres nos últimos 50 anos e que hoje teria opções para reconstruir seu caminho de volta à vitalidade física. 

Há um mês, tem colocado em prática seu plano e essa semana, aos 51, concluiu a primeira etapa com louvor. Como tem mania de fazer promessas, cumpre aqui a primeira: falar sobre a menopausa abertamente para normatizar o assunto, criar pontes de conhecimento para mulheres dessa e das próximas gerações se sentirem seguras quando seu momento chegar e acabar com a ideia de que a menopausa é o começo do fim.

Na verdade, pode ser considerado o primeiro minuto do segundo tempo. Momento em que jogos são virados e vencidos usando a experiência do primeiro tempo, aliada ao vigor pulsante do meio do jogo. 

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