Juliana Azevedo
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Ritual

O dia a dia era bom e esses dias viraram anos e uma pequena benção da religião do marido aconteceu para uma dezena de familiares

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 22h30

Depois de um primeiro casamento desfeito e de uma segunda e longa relação que terminou em fracasso com uma separação cheia de desilusão, ela não se prendia mais a datas e comemorações de namoro e casamento. Sem a real consciência do porquê as datas “sumiam” de sua lembrança, era como se comemorar ano a ano o dia em que se comprometeu novamente pudesse eventualmente trazer a má sorte de ver o fim da relação. O atual marido reclamou no começo, com ternura, mas depois também passou a esquecer.

Nem sempre ela tinha sido assim. Na sua vida, os rituais tinham papel fundamental. O primeiro casamento comemorado com igreja e festa para mais de mil pessoas obedeceu as normas da época – nele, todas as juras de compromisso foram feitas. A promessa do segundo relacionamento era interna e diária. Não poderia errar de novo e iria fazer dar certo de qualquer forma. Datas, então, eram comemoradas para lembrar a si e ao parceiro do compromisso feito e que não tinham saída a não ser avançar juntos.

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Quando tudo desmoronou mais uma vez e a vida, depois de alguns anos, lhe trouxe uma brisa leve de um novo amor, intuitivamente ela despiu-se de qualquer pressão para se comprometer ou exigir comprometimento. Começaram com uma pequena gaveta para que ele colocasse algumas roupas para passarem uns dias juntos no apartamento em que ela morava com o filho de nove anos. Nenhum ritual, nem brinde, nenhuma celebração nem anuncio público às famílias.

O dia a dia era bom e esses dias viraram anos e uma pequena benção da religião do marido aconteceu para uma dezena de familiares. Ela nunca fez um álbum desse momento e se esqueceu de imprimir as fotos. A data também não entrou no calendário de comemorações e mais de uma década se passou. E assim, a cada fevereiro esquecido, em algum momento do ano, o casal lembrava intimamente com alegria genuína que mais um ano tinha se passado e continuavam juntos.

Até que um fevereiro “diferente” surgiu. O ano de pandemia trouxe grandes desafios e quando a doença chegou perto dela, tão perto que seu hálito e cor mudaram, a transformação começou. Foram 15 dias de cuidados intensos. Ele, então, colocava o alarme a cada uma hora e, com paciência, media a febre, o pulso, dava soro, remédios e oferecia comida. 

Passou dias e noites ao lado dela, acompanhando os passos frágeis a qualquer cômodo, monitorando a respiração. Ofereceu conforto, amizade, alegria e o tal comprometimento dos casais reais. Doentes, normalmente, ficam indóceis, e ela não era exceção. Mesmo assim, ele ficou, cuidou, assumiu uma responsabilidade que nunca fora lembrada ano a ano em rituais. Ele simplesmente sabia que eram um casal e que casais são assim.

E quando fevereiro chegou, ela se lembrou da data em que ele colocou as roupas na pequena gaveta quinze anos atrás e teve vontade de comemorar, relembrar, alardear que talvez essa relação pudesse dar certo. Teve vontade de realizar um ritual de celebração para agradecer. Teve vontade, mas, por enquanto, não vai fazer. Só prometeu a si mesma não mais esquecer a data e lembrar sempre quem são e o casal que construíram juntos. Vai agradecer baixinho perto do ouvido dele.

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