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Reflorestamento dentro de casa

Em meio à maior crise de desmatamento do País, designers falam sobre o reaproveitamento e a importância de saber a origem da madeira

Beta Germano, Moda

03 de outubro de 2020 | 16h00

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), já foram registradas 56.425 queimadas na região amazônica em 2020 – maior número dos últimos 10 anos. Enquanto isso, o Pantanal sofre a maior devastação de sua história. Segundo o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), cerca de 15% dele foi consumido, uma área equivalente a 2,2 milhões de hectares (ou o território de Israel).

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Não é de hoje que o Brasil vai na contramão do resto do mundo, permitindo crimes ambientais irreversíveis cuja conta será paga por todo o planeta. Não é de hoje, também, que alguns designers alertam para esse problema. O primeiro passo nesse combate é entender de onde vem a cadeira da sua sala de jantar: de uma árvore. Ela foi retirada ilegalmente? Foi extraída de forma legal, mas derrubou outras espécies? Você contribui para um desequilíbrio na região?

Para instigar esse questionamento, o designer Rodrigo Silveira usou, em 2015, uma árvore condenada do Parque do Ibirapuera para fazer uma cadeira statement com 5 metros de altura. A ideia, além de deixar visível que “os móveis são feitos de árvore”, era participar de todos os processos de confecção para ganhar e promover consciência, desde a extração da árvore até o acabamento final. Em 2020 ele conseguiu levantar o financiamento para fazer o mesmo processo na Amazônia.

No projeto Do Que é Feita a Madeira, ele se propõe a aprender técnicas de construção genuinamente brasileiras com o povo indígena mehinako, no Xingu. “É feito um inventário para calcular a idade das árvores e, com isso, selecionar quais podem ser retiradas. Também é importante ter cuidado para não derrubar nada em volta. Numa extração normal, não existe essa preocupação e o dano causado em outras árvores pode ser irreversível”, explica o artista. 

Por que tanta preocupação com a origem da madeira? Apesar de existirem selos que garantem a procedência de florestas manejadas – os mais comuns são os do Ibama e o selo FSC –, o processo pode fugir do controle até chegar à mão do marceneiro. O primeiro designer a se preocupar com o tema, ainda nos anos 1980, foi Carlos Motta. “Ele nunca participava de eventos de decoração, pois usava só madeira de demolição e as pessoas diziam que não queriam móvel velho”, brinca o filho Diego Motta, idealizador da marca ATTOM junto com o pai, onde vende somente roupas e objetos sustentáveis. 

Outro artista famoso por levantar a bandeira do reaproveitamento é Hugo França. Desde o fim da década de 1980, cria móveis feitos de troncos e raízes mortas do pequi-vinagreiro, típico do norte do Espírito Santo e sul da Bahia. Ele usa árvores que morreram naturalmente, mas também aquelas associadas à destruição do bioma. “As queimadas são feitas propositalmente para tirar os resíduos da floresta e transformar a terra em pasto ou desenvolver plantações”, explica o artista. 

Para França, o bioma mais ameaçado por causa da onda de queimadas é o amazônico, pois é a floresta mais rica do planeta, mas também muito frágil. “A recuperação é quase impossível, pois debaixo dela há um deserto. As pessoas precisam entender que recuperar um bioma não é só sair plantando árvore. A natureza é um sistema muito rico e complexo. Melhor é deixá-la em paz porque sabe o que faz.”

Em sentido horário, a partir da esquerda: cemitério de pequi, no ateliê de Hugo França, na Bahia; poltrona assinada pelo designer; e cadeira desenhada por Rodrigo Silveira.

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