Cai Ramalho
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‘Por que só negras? É o que mais ouço', diz estilista Angela Brito

Criada em 2014 e participando pela segunda vez da SPFW, marca da designer faz desfiles apenas com modelos negras

Gabriela Marçal, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2020 | 00h00

A estilista Angela Brito, que participa pela segunda vez da Semana de Moda de São Paulo (SPFW), viu como positiva a implementação da cota racial no evento.

“É um passo a mais no que a gente já vem lutando desde que nasce. Como a gente não consegue mudar naturalmente uma coisa que já é completamente natural, é preciso que se tome providências, que todo mundo participe e entenda a gravidade do problema. Se as providências são nesse sentido de instituir obrigatoriamente uma cota, que seja, porque precisa mudar", afirma Angela. 

No entanto, ela não terá que fazer adequações nas práticas de trabalho de sua grife. Desde o primeiro desfile de sua marca na Casa de Criadores, em 2018, sua passarela é composta apenas por modelos negras. 

A mulher, negra, africana natural de Cabo Verde relata ser questionada constantemente sobre o motivo de sua passarela ser composta por modelos negras, e sempre costuma promover um debate. “Por que você não reparou antes que só tinham brancas? Foram décadas de brancas. Alguém perguntou o porquê de só brancas?” 

A designer, que criou a grife com seu nome em 2014, afirma que não é sobre defender espaços apenas para a negritude, mas sobre mostrar que representatividade, principalmente no Brasil, não é inserir “um ou dois” afrodescendentes.

De acordo com Angela, sua equipe de trabalho nos bastidores é diversa, mas a passarela apenas com negras é proposital mesmo. “Quero, sim, levantar esse questionamento. Quero que as pessoas se questionem e me perguntem.”

Angela Brito vai apresentar sua coleção na edição N50 SPFW neste domingo, 8, às 18h30. 

Estreia de Angela Brito na SPFW

Angela Brito estreou na SPFW em outubro do ano passado com um dos desfiles mais disputados entre o público.  Além do time de modelos negras, a estilista levou para a passarela uma coleção inspirada no blues nas décadas de 30, 40 e 50, especialmente pelo ponto de vista do documentarista americano Les Blank. Ela que sempre teve os neutros como os tons principais de sua cartela, dessa vez brincou com nuances de amarelo, azul e verde.

“A questão racial é algo que perpassa a trajetória de todas as pessoas negras, mas é importante que comecem a nos enxergar como indivíduos!”, disse Angela na ocasião para o Estadão. "Há uma expectativa para que eu me expresse de determinada forma por ser mulher, negra e africana esquecendo que sou uma pessoa que tem uma história própria e repleta de especificidades, como por exemplo minha transitoriedade por diversos lugares. Portanto, sou um somatório de todas as minhas vivências, o que me faz ser única."

 

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