André Nicolau
André Nicolau

Por que o Brasil ama Juliette?

Fenômeno nacional, a ganhadora do ‘BBB21’ é símbolo de humanidade e humildade em tempos de distanciamento social. Aqui, Alice Ferraz desvenda alguns dos segredos desse fenômeno brasileiro

Alice Ferraz, Moda

11 de julho de 2021 | 07h00

Considerado um dos mais influentes escritores brasileiros, o pernambucano Nelson Rodrigues, em uma de suas célebres e ácidas frases, dizia: “Toda unanimidade é burra”. Mais de 40 anos após sua morte, e com essa reflexão em mente, saí em busca de explicações para o sucesso meteórico de uma jovem e nordestina (como Nelson), nova unanimidade brasileira.

Até o fechamento desta edição, Juliette tinha alcançado a incrível marca de 31,2 milhões de seguidores no Instagram. Ovacionada por milhares em cada postagem de sua página, ela está no pódio da lista de brasileiros com o maior engajamento do mundo nessa mídia social. 

Para quem acaba de aterrissar no planeta Terra, e mais precisamente no Brasil, Juliette é a ganhadora do BBB21, programa mais visto da TV aberta brasileira. Em alguns momentos, a cada 100 televisores ligados, 60 deles estavam sintonizados no reality show da TV Globo.

No segundo ano da pandemia, com a população “presa” em casa, o BBB alcançou recordes e conquistou uma parcela da população até hoje imune ao programa. Dito isso, pergunto a vocês: o que leva uma jovem mulher nordestina a ser eleita em massa pela população brasileira, não só para ganhar o prêmio, mas para virar essa celebridade instantânea? 

Milhões de seguidores são, muitas vezes, fruto de um trabalho bem-sucedido de jovens em outras áreas, que ganham uma comunidade de seguidores. Um exemplo disso é Neymar, um dos melhores jogadores do mundo e que hoje carrega seus 151 milhões de seguidores na rede social – mesmo assim, perdendo em engajamento para Juliette. A cantora Anitta começou sua carreira aos 7 anos e hoje, aos 29, desfila impressionantes 53 milhões de seguidores, posto que a coloca no primeiro lugar entre as cantoras brasileiras. 

Ser jovem para ter sua geração sintonizada com as mídias sociais, intimidade com as necessidades desse novo veículo, somada energia para posts diários que desnudam a vida em fotos, filmes, danças, romances, brigas e algumas polêmicas faz parte do pacote para atingir milhões de seguidores.

Temos artistas que fizeram parte da construção da identidade cultural brasileira, como Caetano Veloso, que reúne 2 milhões de seguidores, ou Chico Buarque, com 693 mil, que comprovam que, mais do que fama ou reconhecimento profissional, o fenômeno dos milhões de seguidores nas mídias sociais é produto do comportamento de uma geração, em que esse espaço de convivência consegue exercer seu fascínio. Para tal, a interação tem de ser mantida em “fogo alto”. 

Com a idade certa para se conectar ao seu público, a paraibana entra em um jogo de TV aberta em momento de pandemia e lá se transforma em horário nobre em um espelho bem-vindo de nós mesmos. Juliette tem características a quem atribuímos virtudes, como a bondade e humildade. Possui uma modéstia que desconcerta, pois não usa subterfúgios para se expressar. Juliette é alegre, mas de uma alegria que parece nascer de um sentimento de gratidão genuína por cada momento que vive na tal casa vigiada 24 horas por dia.

Fala, fala e fala, mas entre uma fala e outra, ela escuta com atenção, acolhe, aconselha, se importa, tem empatia. Juliette é inteligente, esperta, ela se adaptou aos ambientes para “sobreviver” na casa, mas sem abrir mão de valores. Ela tem honra. Nossa personagem avança, recua, se molda, volta atrás e se coloca. Juliette emociona, pois nos vemos nela e gostamos do que vemos. 

Alô, Juliette? 

Estou à espera de Juliette para nossa conversa final. Ela atrasa 10, 20, 30, 40 minutos e começo a pensar que Juliette talvez tenha sido apenas um sonho. Nesse mesmo segundo, ela abre a câmera do Zoom com um sorriso meio sem graça (eu já estou com a cara já amarrada e reclamo), e pede desculpas, com humildade, mas sem subserviência. Conta a verdade, que tirou um cochilo e perdeu a hora (quem diria isso a uma jornalista?) e que a vida desde que saiu do BBB ainda está meio fora de controle. Assim, a Juliette a que assisti nas noites de lockdown aparece novamente na minha frente.

Ela vai falando, ouvindo, perguntando, se interessando, acolhendo e, em pouco tempo, estou entregue, recebendo conselhos e ouvindo suas ideias que falam não sobre ela, mas sobre a vida, as dificuldades, as bênçãos e sobre o mundo. Então, outra célebre frase me vem à mente: o mistério da esfinge de Tebas, o antigo mito grego. “Decifra-me ou te devoro.” Sem conseguir decifrar por completo esse fenômeno, sou como seus mais de 31 milhões de seguidores, devorados por Juliette.

Fotos: André Nicolau

Styling: André Philipe e Rebeca Dantas

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