Por amor

Por amor

Minha história com as mulheres e comigo passou a contar com uma intensa vontade de superar individual e coletivamente nossas limitações

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2020 | 03h00

Sigo aqui, por mais uma semana, com olhar atento e focado nas mulheres e na minha relação com elas. Assim que coloquei um ponto final no primeiro texto publicado domingo passado, foi como se uma torneira tivesse sido aberta e dela jorrassem palavras em profusão para tentar concluir um capítulo que fizesse sentido no, espero, extenso livro da minha vida. Começo discorrendo sem modéstia alguma a profunda admiração que tenho pelo feminino e seu poder de criação e transformação. Acredito que essa enorme consideração veio à tona quando tive a minha primeira gestação. Na época, vi-me em estado de choque por ter a capacidade física de gerar outro ser. Posso garantir que a sensação não foi só de prazer e poder, mas de enorme peso e responsabilidade por não saber como lidar com tamanho “dom”. Vi-me aos 26 anos com a noção exata de que essa bênção era coberta de um dever.

Na minha visão durante a gravidez, ter um filho era trazer ao mundo um ser que eu deveria fazer todo o possível para que contribuísse para melhorar o planeta. Pensei na época que alguém brindado com tamanha oportunidade teria que se esforçar para também se transformar como pessoa. Assim que me vi com meu filho recém-nascido nos braços, dei-me conta também do nível de amor e compaixão que podemos alcançar. Queria que essa lembrança fosse mantida na memória de cada uma de nós para que nos fosse possível em qualquer momento “beber dessa fonte de emoção” e entender e amar o ser humano. O amor incondicional pelo meu filho me trouxe uma dor constante, dor de preocupação com sua segurança, com sua formação, mas sabendo que, mesmo que ele fosse um ser humano sem as qualidades que eu aspirava, eu o amaria e estaria ao seu lado.

Respeitei a admirei mais a minha mãe, que trouxe seis pessoas ao mundo. Respeitei mulheres que não gostava, mas que já tinham filhos, acreditando que a maternidade as teria transformado. E, assim, talvez tenha nascido um “nó” na minha relação com as mulheres. Ciente da força da criação que nos foi oferecida, comecei a exigir de todas nós, tendo eu mesma como parte, uma atitude de responsabilidade, de transformação. Como um ser dotado de tantas qualidades poderia se fragilizar e não estabelecer altos padrões de superação para si mesmo? Tínhamos que ser melhores a cada dia, a cada ano. Tínhamos que nos superar como seres humanos. Em determinado momento, lendo o “Os irmãos Karamazov”, de Fiodor Dostoievski, me deparei comigo mesma não suportando a ideia de que não pudéssemos almejar e lutar com todas as nossas forças para alcançarmos sempre a superação. No livro, um inquisidor deixa claro a Cristo de que seu retorno pode ser uma ameaça demasiada, pois o fardo que ele colocou sobre a humanidade era pesado demais. O olhar de Cristo sobre nós, visando nosso potencial de qualidade moral, parecia impossível de ser atingido.

Minha história com as mulheres e comigo passou a contar com uma intensa vontade de superar individual e coletivamente nossas limitações. Busco uma união, respeitando e entendendo nossas diferenças, mas sempre e acima de tudo nos defendendo e nos protegendo de qualquer lugar menor do que nossas potencialidades.

O potencial que enxergo em cada mulher, na maior parte das vezes, é maior do que ela enxerga em si mesma no momento. Colocada em lugar de fragilidade e dependência por tanto tempo, não consegue muitas vezes se ver como ser autônomo, forte, criativo e transformador que é. Essa minha posição trouxe-me grandes oportunidades, vendo aflorar em mim e em outras mulheres o vigor de um feminino autêntico. Superei e vi mulheres superarem desafios considerados intransponíveis. Mas, vi também – e aí o “nó” fica apertado – mulheres que, por medo ou preguiça, abandonam-se. Acabam por conformar-se com um espaço menor do que o que merecem. São pouco solidárias com suas irmãs, comportando-se como rivais. Nesses momentos sou implacável comigo e conosco. Não desisto, não me acovardo. Quero acordar e quero acordá-las. Sofro e luto.

ALICE FERRAZ É ESPECIALISTA EM MARKETING DE INFLUÊNCIA E ESCRITORA, AUTORA DE ‘MODA À BRASILEIRA

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