Igor Reis, Maria Beatriz Machado e Dani Malva
Igor Reis, Maria Beatriz Machado e Dani Malva

Poder feminino

A marca Flavia Aranha promove mudanças e causa impacto positivo na moda brasileira

Alice Ferraz, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2021 | 05h00

Fazer uma moda verdadeiramente sustentável demanda um trabalho consciente em toda a cadeia produtiva, que começa com a matéria-prima e chega à peça final, pronta para ser vestida. Pensar em um modelo de negócio que, além de ser ecologicamente correto, também tenha pilares que promovem a construção de uma rede de impacto feminino e se propõe a regenerar e renovar a cadeia parece quase utópico, mas essa marca existe. 

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Nossa série de textos sobre moda sustentável chega a Flavia Aranha, mulher de alma criativa com mente empreendedora que conquistou seu espaço no mercado brasileiro com sua marca homônima, que nasceu em 2009 do amor pela natureza e da força da mulher. “O eixo da nossa pesquisa é o tingimento natural e a partir dele fomos criando a ideia de um modelo de negócio que tivesse impacto positivo. Desde o começo tive uma visão holística da moda. Assim como, no universo botânico, nossa indústria tem de ser vista como um todo”, diz Flavia. 

Conhecida no mercado por usar cascas de árvores, frutos, folhas e raízes como tingimento para suas criações, a marca define seu trabalho como artesanalmente industrial, unindo conhecimentos do passado com avanços tecnológicos contemporâneos. “Falamos muito sobre sistemas e agricultura regenerativa. Em 2009, isso já estava muito claro para mim. Com isso, fui buscando tecnologia de ponta, estudando química, biologia e hoje consigo tingir 200 kg de tecido de uma vez”, comenta Flavia. “Acho que a mudança de mindset é olhar para uma ancestralidade como raiz. Nosso pensamento é integrado.” 

O termo “agricultura regenerativa” ao qual Flavia Aranha se refere é um conceito criado pelo especialista americano Robert Rodale (1930-1990), que usou a frase para falar sobre a recuperação do solo por processos de plantios baseados em diretrizes que incluem o cultivo de uma vasta diversidade de plantas e a não utilização de fertilizantes e agrotóxicos, por exemplo. A proposta é que este tipo de agricultura sirva como manutenção dos sistemas ecológicos e também como fonte de renda para comunidades rurais. Seguindo este conceito, Flavia Aranha usa a moda para promover impacto positivo no mundo, “nossa metodologia é agrupar, criar arranjos de pequenos produtores”, comenta. 

A força feminina também é algo marcante da personalidade da empresária. Flavia vem de uma família de mulheres fortes, que sempre tiveram autonomia e liberdade para decidir suas carreiras e vidas. No entanto, atuando na captação de recursos para crescimento da empresa, deparou-se logo na primeira rodada de investimentos com um fato que chamou sua atenção e que serviu como catalisador para mudanças. “Comecei a fazer reuniões com investidores e só vi homens. Com isso, senti que falta no mercado uma rede de dinheiro feminino. A partir daí, começamos a buscar mulheres para a segunda captação. Tinha uma preocupação de ter representantes femininas como acionistas da marca. Assim, criamos um grupo de mulheres para que elas sejam responsáveis por 50% dessa captação”, diz. 

Atualmente, a marca é comandada por mulheres, com um quadro de funcionários majoritariamente feminino. Com a sustentabilidade em seu DNA, Flavia Aranha cria conexões, trabalha por mudanças e tem como objetivo causar impacto positivo no mundo. Um exemplo dessa intenção pode ser visto em sua última coleção, que tem entre a cartela de cores o Rosa Pau-Brasil. O tom que é visto com um símbolo de feminilidade vem da serragem da árvore que deu o nome ao nosso País. O insumo vem de um produtor de arcos de violino do Espírito Santo – que usa madeira certificada – e o pó desse material que seria descartado tinge de rosa as peças dessa criadora de moda brasileira que se equilibra na dança entre a criatividade artística e a visão empresarial. 

Flavia se mostra atenta ao mundo ao seu redor e finaliza nossa conversa dizendo: “Falamos muito sobre regeneração das matérias-primas que vêm da terra e que voltam para a terra, mas trabalho não precisa ser apenas poético e utópico. Se queremos ser inovadoras desde a tecnologia de tingimentos naturais, por que não trazer essa mentalidade também para a maneira de captar e gerir dinheiro? Vamos ter esse primeiro capítulo dentro da Flavia Aranha e entendo que isso vai transbordar para algo maior”. 

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