Reprodução / Instagram
Reprodução / Instagram

Peças versáteis e atemporais são aposta de jovens no mercado da moda

Marcas que nasceram na internet já estavam preparadas para uma realidade digital e viram o isolamento social impulsionar o setor online

Bárbara Pereira, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2021 | 10h00

Entre as várias mudanças que a adolescência causa em todas as garotas, uma delas é um conflito fashion entre não querer mais usar roupas do setor infantil, mas ainda ser jovem para comprar roupas de adulto. Foi a partir desse embate que a jovem Isabela Matte, com apenas 12 anos de idade, deu o primeiro passo na sua carreira de empreendedora no mercado da moda.

O ano era 2010. Isabela, natural de Brasília, havia se mudado para São Paulo com a família. Em casa, começou a desenhar suas próprias roupas e passou a vender para amigas próximas. "Percebi que havia um nicho não preenchido no mundo da moda: roupas estilosas, com preço justo e com uma modelagem para meninas de 11 a 16 anos", conta. A aposta foi certeira e não precisou de muito tempo para a marca se tornar um sucesso entre essa faixa etária, com milhares de meninas interessadas em adquirir as peças - entre elas, uma calça com cortes que foi febre entre as paulistanas naquele ano.

Nesse período inicial, em que a produção e divulgação da marca ainda era caseira, o investimento não passou de mil reais. "Depois das primeiras vendas, usei todo o lucro para reinvestir na marca e abrir o e-commerce com uma coleção mais extensa", explica a empresária, hoje com 22 anos. Com menos de um ano de empresa, o faturamento já tinha ultrapassado R$ 1 milhão. O crescimento contínuo projetou Isabela para uma posição de destaque: em 2018, foi eleita pela revista Forbes uma das 30 brasileiras mais promissoras com menos de 30 anos. 

Assim como Isabela, a jovem Letícia Vaz, nome por trás da LV Store, também começou com pouco investimento. Em 2015, quando foi morar sozinha em São Paulo para fazer faculdade, decidiu buscar uma forma de renda extra para ajudar nos custos de vida na cidade grande. "No primeiro ano, eu só revendi peças de outras marcas", explica. Foi a partir do segundo ano da LV Store que Letícia começou a produzir suas próprias peças: "Desenvolvi um cropped: eu mesma cortei, costurei e fui em uma festa". À época, o modelo de blusa mais curta, que deixa parte do corpo à mostra, ainda estava começando a fazer sucesso no mercado da moda. Em pouco tempo, o item começou a ganhar complementos, como saias e jaquetas, ampliando não somente a variação de modelos, como também a grade de numeração. 

Não demorou muito para a marca atingir proporções nacionais, com vendas para todo o Brasil e reconhecimento de grandes artistas. "Eu lembro que uma vez a Maísa comentou em uma foto nossa. Foi quando eu realmente vi que era um negócio muito grande e que estava fazendo muito sucesso", recorda a jovem de 23 anos.

A ideia de apostar em peças versáteis e minimalistas faz parte da identidade de marca da Isabella Matte Store, da LV Store e também da Guardaroba - essa última, criada em 2013. Para as sócias Gabriella Torneri, Rafaella Torneri e Juliana Santana, todas com menos de 25 anos, o objetivo da loja online sempre foi produzir peças que simplificassem a moda sem perder a originalidade. "Peças atemporais fazem parte do nosso DNA. A proposta é apresentar uma moda básica, mas nada óbvia. Cores neutras, tecidos confortáveis e lisos são o que destacam as nossas criações", analisa Gabriella, acrescentando que o objetivo é permitir a composição de um guarda-roupa inteligente e funcional. 

Em 2018, as sócias decidiram extrapolar o ambiente digital e arriscar um primeiro evento físico com duração de dois dias. A experiência de compra proporcionada pela oportunidade em provar e conhecer as peças pessoalmente atraiu centenas de clientes. "Hoje, no mundo digital, é muito difícil mensurar o número de seguidores. A partir do momento em que vimos as pessoas de fato, entendemos a dimensão desses números e no que a Guardaroba estava se transformando", reflete. 

Se o negócio começou com o estoque no depósito da própria garagem, hoje já conta com quase 40 colaboradores (em sua maioria, mulheres) e a mudança para um galpão, onde será possível ampliar a capacidade de produção. 

Faturamento cresce na pandemia

Se a pandemia trouxe dificuldades financeiras para a grande maioria da população, ela teve o efeito contrário para as três marcas. “Nós tivemos um crescimento absurdo nos primeiros meses, depois sentimos uma estabilização e voltamos a crescer”, revela Isabela Matte. No entanto, a paralisação de atividades e o distanciamento social impossibilitaram eventos presenciais que estavam na programação da marca.

No caso da LV Store, a expansão foi tão grande que a marca precisou buscar uma nova fábrica com mais que o triplo de tamanho para que acomodasse todos os setores da fabricação e desse conta da demanda. "Todos os anos, a gente cresce uma média de 40 a 50%. Em 2020, crescemos 70% em relação ao ano anterior", revela a empresária.

Letícia conta que foi preciso reavaliar o negócio para se adequar ao novo momento: "Pesquisei o reflexo da pandemia nos outros países e vi que os setores que mais sofreram foram moda e móveis". Para isso, adaptou parte do estilo das peças. Se antes a LV Store fazia sucesso com roupas para festa, a marca passou a investir no conforto. "Não faz sentido as pessoas comprarem roupa se não tem para onde ir, então começamos a lançar só peças confortáveis: conjunto de moletom, camisetinhas, tudo que a pessoa pode usar em casa, mas também vai conseguir fazer outra combinação e sair depois da pandemia", explica. 

Nos próximos anos, a jovem pretende expandir ainda mais a LV Store: "Para 2022, queremos abrir uma loja física em São Paulo no modelo de franquia". Cidades como Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte são as seguintes da lista, locais onde a marca concentra grande público. 

Assim como as outras marcas que nasceram na internet, a Guardaroba já estava preparada para uma realidade digital e viu o isolamento social impulsionar o setor online. Além de registrar aumento nas vendas, as sócias também enxergaram o momento como uma oportunidade de exercer a generosidade. "Passamos a confeccionar máscaras para doar, as ecobags foram comercializadas a fim de levantarmos recursos para compra de cestas básicas para projetos sociais e sachês de álcool em gel eram entregues em todos os pedidos", exemplifica Gabriella. 

Empreendedorismo no mercado da moda

Como mulher e empreendedora, Isabela relata já ter vivenciado situações desconfortáveis em que teve o seu trabalho minimizado por outros homens. "Toda mulher já se sentiu inferiorizada ou sofreu preconceito por ser mulher. Como eu empreendo no meio da moda, isso acaba acontecendo menos, mas o mundo de negócios no geral é bem machista". Hoje, além de acreditar que essa realidade está mudando gradualmente, a empresária faz sua parte para empoderar outras mulheres que também trilham o mesmo caminho. Nos últimos anos, produziu dois cursos para compartilhar sua expertise: o primeiro traz dicas para a criação de um e-commerce, enquanto o segundo ensina a vender mais com o apoio das redes sociais. A estratégia de criar um curso online para dividir sua experiência também foi adotada por Letícia, da LV Store, com o lançamento do Método LV

Aos que ainda não deram o primeiro passo no mundo do empreendedorismo, Letícia recomenda: estude. "A maior parte dos erros das empresas é que elas abrem sem nenhum tipo de planejamento de negócio. Normalmente, quem começa a empreender, começa como um plano B. Mas para você ter uma loja virtual, não precisa saber só sobre o seu produto. Você vai precisar entender de vendas, marketing, comunicação, logística, financeiro, gestão", exemplifica. Tais competências vão além de uma formação universitária, por isso a empresária sugere o complemento de cursos na área. É preciso entender que nem sempre você será bom em todas essas atividades, por isso ela sugere, mais uma vez, o estudo, dessa vez do próprio negócio: "Saiba quais são as suas soft e hard skills e desenvolva o que ainda não está tão bom em você e na sua empresa, assim você consegue planejar antes de executar", completa.

Para as sócias por trás da Guardaroba, a dica é investir na experiência do cliente, desde quando ele entra em seu perfil no Instagram, até quando tira dúvidas no WhatsApp e navega pelo site. "Todas as estruturas da marca precisam estar alinhadas para que a experiência de compra do seu consumidor seja especial e única. É primordial colocar o cliente em primeiro plano. A concorrência de qualidade sempre vai ser limitada, então trabalhe naquilo que você acredita e faça isso com excelência", conclui Gabriella. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.