Sebastião Salgado
Sebastião Salgado

Paraíso(quase)perdido

Uma Amazônia musical e preta e branca ganha exposição realizada pela Filarmônica de Paris em homenagem a Sebastião Salgado

Renata Piza, Moda

24 de outubro de 2021 | 05h00

Não está nas passarelas da semana de moda de Paris, embora seja possível se deslumbrar com os trajes e adornos da tribo Ashaninka, conhecida pelo uso da kushma, uma espécie de túnica usada por homens e mulheres. Em um registro do premiado fotógrafo Sebastião Salgado, o apreço estético que já inspirou a Osklen é visto em uma índia segurando um espelho enquanto se maquia ou, melhor, dá vida à pintura facial típica de seu povo. 

Estamos em 2021, os desfiles presenciais foram retomados e o mundo aguarda a COP-26, em Glasgow, onde os signatários do acordo de Paris terão de garantir as metas de redução da emissão de gases se não quiserem ser responsáveis pelo ponto irreversível do aquecimento global. 

Neste mesmo ano, irreversíveis foram as perdas de milhares de vítimas da pandemia, vista por muitos ambientalistas como uma “resposta” de Gaia e dos milhares de metros desmatados da floresta  amazônica, 10.476 km2 entre agosto de 2020 e julho de 2021, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. O pior índice dos últimos dez anos.

Sebastião Salgado não é só um artista documental, dono de uma cadeira na Academia de Belas Artes da França. É também o homem que dirige ao lado da mulher, Lélia, o Instituto Terra, responsável pelo plantio de 2 milhões de mudas de árvores no Vale do Rio Doce, Minas Gerais. “A terra estava doente como eu estava – tudo estava destruído, e então minha esposa teve a ideia fabulosa de replantar essa floresta. E quando começamos o replantio, todos os insetos, pássaros e peixes voltaram, e, graças a esse aumento das árvores, eu também renasci”, narrou o artista. 

Durante sete anos (2013-2019), ele cruzou a Amazônia brasileira, fotografando floresta, rios, montanhas, as pessoas que vivem ali. Esse universo profundo, força da natureza, imprimiu imagens marcantes, muitas delas reveladas ao público pela primeira vez em Sebastião Salgado Amazônia Création, musical de Jean-Michel Jarre, em cartaz no Museé de La Musique até 31 de outubro, mesmo dia, veja só, da abertura da COP-26. Coincidência? De lá, as imagens viajam para outras metrópoles mundiais, entre elas Londres, Roma, São Paulo e Rio de Janeiro.

São mais de 200 fotos que englobam dez comunidades indígenas; sete filmes produzidos com depoimentos de lideranças sobre a necessidade de salvar sua cultura e seu ambiente; e uma composição musical criada por Jean-Michel Jarre para acompanhar a imersão amazônica de Salgado – primeira etapa do Musée de La Musique no campo da bioacústica. 

Simbolismos podem ser vistos no céu carregado sobre o arquipélago fluvial de Mariuá ou nas cachoeiras-lágrimas que escorrem pelo Monte Roraima.  “O percurso da exposição foi pensado como uma viagem pela floresta; entramos aos poucos pelo ar e de barco. Seguimos o rio. A floresta fica densa e então você entra em um espaço que lembra as casas dos índios, onde você pode encontrar tribos”, explica Salgado. “Podemos detectar as origens do Rio Amazonas que drena essa erosão; a cor das águas é a da terra.” 

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